sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Liga BPI - a terceira jornada à porta



Depois de um interregno de duas semanas, devido a compromissos das selecções nacionais, a Liga BPI volta ao activo. 
Ainda está tudo muito no início, mas há 3 equipas que ainda não pontuaram. Vejamos como vai ser o seu fim de semana e das restantes, também.

Sporting - Estoril Praia - ainda está por descobrir a real valia do Estoril versão 2018/2019 e este não seria, de todo, o jogo mais apetecível depois da pesada derrota em casa, frente ao Valadares. Sporting clara e obrigatoriamente favorito, mesmo com o cansaço das suas jogadoras que se deslocaram à China em representação da selecção. 

SC Braga - Futebol Benfica - jogo que vai marcar dois reencontros com antigas equipas: o de Matilde Fidalgo, agora com as cores vermelha e branca, e o de Edite Fernandes que regressa ao 1º de Maio em representação do Fofó. Favoritismo claro e obrigatório (à semelhança do Sporting) para o Braga, ficando no entanto a dúvida sobre que tipo de jogo o Futebol Benfica irá conseguir apresentar. Depois da derrota pela margem mínima frente ao Sporting, o jogo em Braga servirá para demonstrar que o resultado e a exibição não foram ao acaso.

Clube de Albergaria - Ouriense - percursos diferentes nas duas primeiras jornadas para ambas as equipas. O Clube de Albergaria com dois empates, um deles em casa logo a abrir a Liga BPI, que não deveria estar nos seus objectivos. Ao invés, o Ouriense teve uma entrada fulgurante em Vila Verde e confirmou-o com nova vitória em casa. Jogo bastante equilibrado, sem favorito aparente, apesar do Albergaria jogar em casa. 

A-dos-Francos - AD Ovarense - a equipa da casa, após uma derrota esperada em Braga, bateu o Vilaverdense em casa por 3-0, resultado suficientemente robusto para aparentar um acaso. À Ovarense calhou-lhe a fava no início da Liga BPI, tendo defrontado Sporting e Braga nas duas primeiras jornadas. Portanto, agora é que começa o seu campeonato. A deslocação é difícil, porque o A-dos-Francos é sempre forte jogando em casa, mas veremos o que esta equipa estreante no escalão principal do futebol feminino tem para nos oferecer.  

Valadares Gaia - Marítimo Madeira - vindo de uma goleada conseguida em casa do terceiro classificado da época passada, por 3-8, o Valadares tem tudo para conseguir a vitória jogando em casa frente a um estreante da Liga BPI. Se o futebol fosse assim tão simples, não teria tanto interesse. Apesar de algum favoritismo para a equipa visitada, o Marítimo já deu a entender que não veio para a Liga BPI para facilitar. Com uma vitória e um empate, 5 golos marcados e 2 sofridos, tem demonstrado a irreverência dos estreantes. Talvez o jogo mais interessante da jornada.

Vilaverdense - Boavista - em confronto duas das equipas que ainda não pontuaram, a par com a Ovarense que tem a seu favor ter jogado com Sporting e Braga. Para o Vilaverdense, depois do 4º lugar na época passada, não deveria ser este o início desejado, sendo uma incógnita a forma como a equipa vai reagir a isso. O Boavista, que tem nos últimos anos vivido a dificuldade de ficar sistematicamente sem as melhores jogadoras, estará mais habituado a que os inícios de época não sejam os melhores e consegue, fruto da sua experiência, subir de rendimento ao longo das mesmas. Será um jogo bastante duro e disputado. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Liga BPI - uma jovem competição

Neuza Besugo e Patrícia Balão

Estreou-se esta época, 2018/2019, uma nova designação para a competição máxima do futebol feminino português. Tem duas jornadas cumpridas e chama-se Liga BPI.

Mas não é por isso, ou pelo menos não só por isso, que é uma jovem competição. Existe outro fator, bem mais importante do que a sua “idade”. E tem que ver, sobretudo, com a idade das jogadoras. Segundo fonte da FPF, a média de idades das jogadoras da Liga BPI é de 22 anos, um valor bastante interessante para o topo do futebol feminino português.

Isto significa que há jovens com qualidade e maturidade para fazerem parte dos plantéis e que há, também, treinadores que acreditam nessas jovens chamando-as a integrar as suas equipas.

Do que se tem verificado, no percurso recente das seleções jovens, a qualidade do futebol feminino português está bem segura e com tendência a aumentar de ano para ano.

No entanto, não se pode descurar o critério e o bom senso na utilização destas jogadoras. Há que ter em atenção que a maturação não é homogénea e que a sua integração no onze principal tem de ser feita de forma gradual, ou no limite, de forma que a jogadora assim saiba lidar com essa pressão.

Queimar etapas não é um bom processo, pois o que se deseja é que essas jovens jogadoras continuem a jogar futebol por muito mais tempo, queiram e procurem sempre evoluir.

Ao longo dos anos já vimos aparecer grandes jovens talentos que aos poucos desapareceram, fosse por desinteresse próprio, fosse por falta de acompanhamento, má gestão das equipas, etc, etc. Os motivos só serão relevantes para aprendermos com eles. O que interessa é que há muitas jogadoras jovens com talento, mas ainda não em número suficiente para descurarmos estes sinais.

Não podemos perder as pérolas que vão surgindo, mas não as afoguemos na ânsia do imediatismo, nem do mediatismo. É uma tarefa árdua que tem de ser encarada com bastante ponderação. Mas que eu acredito que vamos conseguir superar, tornando o futebol feminino, a cada dia que passa, mais forte.
 
[Texto originalmente publicado no site do Sindicato dos Jogadores]

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Liga BPI - o que esperar desta segunda jornada



É já no próximo domingo, pelas 15 horas, que se vai disputar a 2ª jornada da Liga BPI.
Da primeira jornada vieram duas surpresas: as vitórias, fora, de duas das três equipas promovidas à Liga BPI, o Marítimo e Ouriense.
Bom começo para animar a competição e tornar menos previsíveis os resultados em cada jornada.
Que duelos temos, então?
Marítimo - Clube de Albergaria - após a vitória fora do Marítimo e tendo o Clube de Albergaria cedido um empate em casa, e apesar da equipa da Madeira ser estreante na Liga, o favoritismo estará do seu lado. Mas só pelo efeito surpresa da vitória, que naturalmente reforça animicamente a equipa. No entanto, do outro lado está uma equipa habituada a grandes jogos e que venderá caro o resultado.
Estoril Praia - Valadares Gaia - a jogar em casa, o Estoril terá algum favoritismo. Mas o Valadares terá vontade de "vingar" a derrota do fim de semana na capital, contra o Futebol Benfica, e tem argumentos para isso, como mostrou na 2ª parte do jogo anterior.
AD Ovarense - SC Braga - início de época bastante difícil para a recém promovida Ovarense. Com armas muito diferentes do Braga, resta procurar intensificar o seu ritmo (e nada melhor para isso do que os jogos com Sporting e Braga) para de seguida "entrar" na Liga BPI de verdade. Para o Braga mais um teste à concentração e disponibilidade da equipa, já que as dificuldades serão poucas.
Futebol Benfica - Sporting - jogo de extrema dificuldade para o Fofó, mercê da valia do Sporting. Com o centro da defesa com algumas lesionadas, ainda assim, deu para ganhar ao Valadares. Mas as duas avançadas do Sporting Diana Silva e Carolina Mendes já valem, com somente uma jornada feita, três golo cada. Um teste de muita luta para a equipa da jovem Madalena Gala, que já deu um novo futebol ao Fofó. Para o Sporting será mais um jogo em que terá de conquistar os três pontos, porque a sua condição assim o exige, à semelhança do Braga, e os objectivos também. Apesar das diferenças, prevê-se um jogo bastante interessante.
Ouriense - Boavista - o Ouriense a jogar me casa é sempre uma equipa bastante difícil, porque os seus adeptos são mesmo o 12º jogador. Com a vitória, algo surpreendente, em Viva Verde, estará com a moral em alta. O Boavista, após derrota em casa, tem pela frente um jogo bastante difícil, mas no qual tentará conquistar pontos, ou a sua treinadora não fosse a Alfredina Silva, conhecida pelas equipas lutadoras mas também bastante organizadas.
A-dos-Francos - Vilaverdense - campo sempre difícil o do A-dos-Francos, e onde a o favoritismo está sempre do lado da equipa da casa, exceptuando Braga e Sporting. Após a derrota na 1ª jornada, quererão somar os primeiros pontos. Mas do lado outro lado deverão encontrar um Vilaverdense com alguma azia da derrota em casa e com vontade de mostrar que não ficaram em 4º lugar na época passada por acaso. Prevê-se um jogo bastante intenso.
Quais as surpresas que nos estarão reservadas para domingo? Estou expectante.
Acima de tudo, que seja uma jornada de saudável competição e onde o futebol feminino saia sempre dignificado.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A próxima realidade do futebol feminino nacional

(Foto FPF)
Até ao aparecimento dos designados clubes grandes com equipas de futebol feminino (Sporting CP, SC Braga e SL Benfica), a contratação de jogadoras estrangeiras era quase inexistente. Existiam jogadoras oriundas de outros países a evoluir em equipas nacionais, mas sem a dimensão que se observa atualmente. Por norma chegavam a Portugal com a família e não vinham exclusivamente para jogar futebol.
As exigências e os objetivos traçados por estas equipas (no imediato não se aplica ao SL Benfica, mas para lá caminha na época 2019/2020), não se limitam às competições internas, mas sim à sua projeção por essa Europa fora. E, para tal, há que encontrar as melhores jogadoras para fazer face aos desafios.
Ora, por muito que nos custe admitir, Portugal ainda não dispõe de um leque alargado de jogadoras com elevada qualidade para se poder construir 3/4 equipas com o mesmo nível de competitividade. Caminha-se a passos largos para essa realidade, as gerações mais novas estão em franco crescimento e já com outras exigências competitivas a nível internacional. Para se poder construir uma equipa competitiva há que recorrer à contratação de jogadoras estrangeiras. O Sporting CP tem três, o SC Braga tem um conjunto considerável de jogadoras provenientes dos quatro cantos do mundo e o SL Benfica construiu a sua equipa base com recurso a jogadoras brasileiras, quase todas com provas dadas a nível de seleção (principal ou de formação).
Uma coisa é certa: o aporte de jogadoras que evoluíam em campeonatos mais competitivos que a nossa Liga BPI só pode ser visto com agrado e com a perspetiva de tornar esta cada vez mais interessante.
Pessoalmente só tenho um senão. Nada me move contra que a Liga BPI possa ter jogadoras estrangeiras de qualidade e que estas possam, efetivamente, ser uma mais-valia para a competitividade. Não obstante, defendo incondicionalmente que todas as que sejam contratadas tenham que ser melhores do que as jogadoras portuguesas que disputam as várias competições femininas. Contratar e depois ter que rentabilizar o investimento em detrimento da opção na jogadora portuguesa em nada contribui para o crescimento e valorização da jogadora nacional. Será um lugar tapado (ou vários) e que uma jogadora portuguesa não vai poder disputar de igual para igual. 
E não, não é uma utopia o que afirmei acima. Vivemos essa realidade na Liga NOS e nas demais competições masculinas profissionais, onde muitos lugares estão ocupados por jogadores estrangeiros que em nada acrescentam qualidade ou competitividade e que não são melhores que os nossos jogadores. Outros valores se elevam sem que isso beneficie o espetáculo desportivo propriamente dito.
Que o exemplo não se repita na versão feminina.

Maria João Xavier (texto publicado originalmente no sítio do Sindicato dos Jogadores)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Liga BPI quase a estrear

 
 
Depois da época oficial se ter iniciado com a Supertaça, da qual saiu vencedora a equipa do SC Braga, vencendo o Sporting CP nas grandes penalidades após um empate a uma bola, começa este fim de semana a nova Liga BPI.
Na prática será em tudo igual à anterior competição, só mudando o nome do patrocinador.
À semelhança das duas épocas anteriores, os favoritos à conquista do título serão Sporting CP e SC Braga. Por muito monótono e contraproducente que seja, o favoritismo e a responsabilidade do título recaem nas duas equipas que têm uma estrutura toda ela dedicada tão e somente ao futebol feminino, jogadoras incluídas.
A curiosidade será em ver como reagirá o Sporting CP à perda da Supertaça, já que outro dos objectivos por demais desejado - a passagem à fase a elimina da UEFA Women's Champions League - também não foi alcançado. Ou seja, o Sporting CP entra para a Liga BPI carregado de frustração. Se por um lado isso poderá ser motivador, aquela coisa de "o que não nos mata, torna-nos mais fortes", por outro se o grupo não estiver suficientemente maduro e agregado, a dificuldade em ultrapassar a frustração pode fazer estragos. E isso só agora poderemos ver, já que numa equipa que vence sempre, é mais fácil os atritos serem relevados.
O SC Braga entra na época cheio de confiança, já que ao oitavo embate finalmente sai vitorioso. E logo uma vitória que dá um título. Veremos como a equipa se irá desenvolver, já que tem muitas jogadoras novas e o jogo da Supertaça não foi propriamente brilhante. Embora tenham acabado em crescendo.
Analisando, então a primeira jornada:
 
SC Braga - A-dos-Francos - o Braga recebe a equipa que na época passada se salvou in extremis da descida. Confronto muito desigual e se a equipa visitante viajar no próprio dia, o que é habitual em função dos parcos orçamentos, ainda ajudará mais a cavar o fosso. Mantendo a maioria das jogadoras da época passada, o A-dos-Francos terá sempre grande dificuldade perante adversários desta valia.
 
Sporting CP - AD Ovarense - o campeão, ferido, a receber uma das equipas que se vai estrear no novo formato de competição. Para o Sporting será um jogo para ganhar, assim o exige o seu estatuto, ainda para mais jogando em casa. Para a Ovarense é um jogo cheio de motivações extra: contra o campeão, jogar na Academia, ter transmissão televisiva, e onde não se lhe pode assacar mais nenhuma responsabilidade que não aquela de mostrar por que motivo subiu à Liga BPI.
 
Futebol Benfica - Valadares Gaia - um duelo já histórico no futebol feminino, tais os confrontos inflamados e disputados por ambas as equipas. De notar que o Valadares roubou a possibilidade do Futebol Benfica conquistar seis troféus nacionais consecutivos, ao ganhar a Supertaça em 2016. Para domingo, espera-se naturalmente um jogo muito equilibrado e bem disputado, havendo alguma curiosidade na estreia oficial de Edite Fernandes no Fofó, vinda do SC Braga. Também o Valadares recebeu uma jogadora de lá, a Guita, um regresso à equipa de Gaia. Será, certamente, um dos jogos fortes da jornada.
 
Clube de Albergaria - Estoril Praia - outro jogo que desperta alguma curiosidade. O Albergaria reforçou-se bastante, beneficiando da desistência do Ferreirense, e é um histórico do futebol feminino, sendo um dos baluartes da formação em Portugal. O Estoril, que na época passada ficou em terceiro, e que trabalha muito bem ao nível da formação, viu saírem algumas jogadoras e o treinador. De que modo é que isso vai afectar a qualidade da equipa é o que poderemos já começar a ver este fim de semana.
 
Boavista - Marítimo - com um departamento de futebol feminino todo renovado, e o regresso da Alfredina Silva para o comando técnico, o Boavista teve de enfrentar a saída de bastantes jogadoras. Para este jogo há alguma expectativa em saber de que forma Alfredina conseguiu refazer a equipa. O Marítimo, campeão da Promoção da época passada, faz a sua estreia na Liga. Reforçado com a internacional portuguesa, Suzane Pires, estará cheio de motivação para o primeiro jogo, ainda para mais contra o Boavista, o clube com mais história no futebol feminino português.
 
Vilaverdense - CA Ouriense - do Vilaverdense, mesmo com saída de jogadores importantes, como o regresso da Sara Brasil ao Braga, pode-se sempre esperar boas equipas, já que aquela zona é fértil em jogadoras de bastante qualidade. Depois do quarto lugar conquistado na época passada, neste jogo o factor casa ajuda a um certo favoritismo. O Ouriense, clube que já foi bi-campeão nacional e conquistou uma Taça de Portugal e tem no seu palmarés ser o único clube que almejou passar a fase de grupos da UWCL, regressa à Liga feminina mercê da desistência do Ferreirense. Com alguns reforços quiçá para a manutenção, é sempre um adversário a ter em conta.
 
Domingo, começa portanto uma nova Liga, que cria bastantes expectativas e em que todos os protagonistas terão um papel importante para a divulgação do futebol feminino.
Desejamos uma boa atitude competitiva e arbitragens seguras e assertivas.


segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O futuro é já amanhã!


O momento que o futebol feminino atravessa em Portugal pode dizer-se que é de prosperidade e com futuro bastante auspicioso.

O aumento do número de jogadoras inscritas na Federação Portuguesa de Futebol (FPF), ano após ano, demonstra que o futebol começa a ser encarado como uma opção válida para as miúdas e raparigas de praticar, de forma organizada e orientada, o seu desporto de eleição (felizmente, cada vez em idades mais precoces). O chavão que o futebol não tem género é cada vez mais atual.

A final da Festa do Futebol Feminino, realizada a 26/05/2018, no Estádio Nacional, com mais de 900 miúdas e raparigas, bem como as ações do mesmo evento organizado pela FPF em Braga, Bragança e Porto (entre outras), a adesão foi um bom indicador do que podemos esperar para os próximos anos. Não posso deixar de dizer que fiquei maravilhada com a entrevista a uma jogadora que esteve no evento de Braga que à questão “quando os meninos não te passam a bola, o que fazes?” dá uma resposta deliciosa “tiro-lhes a bola”. São estas miúdas e raparigas que agora começam que vão ser as nossas craques daqui a uns anos. Assim tenham oportunidade para tal.

O apuramento histórico para o EURO 2017, o primeiro no escalão sénior, permitiu um enorme impulso na perspetiva de incrementar cada vez mais o número de praticantes. Não obstante o apuramento reconheço que ainda levamos uns anos de atraso face a outras realidades europeias mas estamos rapidamente a encurtar caminho. A criação da Liga Allianz, com a entrada do Sporting CP e do SC Braga (sem esquecer o Estoril Praia e o Belenenses) enquanto clubes que evoluem na Liga NOS (e que tendencialmente podem proporcionar condições não ao alcance de outros que há décadas desfiam as dificuldades em manter uma equipa de futebol feminino) abriu novos horizontes para todas as jogadoras assim como aquando do anúncio da criação de equipa no SL Benfica, a partir da próxima época.

Dizia acima, “assim tenham oportunidade para tal” será o grande desafio. Não só dos clubes mas especialmente das jogadoras. Os clubes porque têm que tentar todos os meios para gradualmente proporcionar mais e melhores condições para que as jogadoras possam evoluir de forma sustentada. Mas, se porventura os clubes conseguirem essas condições a responsabilidade de saber tirar partido dessas mesmas condições será exclusivamente das jogadoras.

É verdade que em Portugal há jogadoras profissionais mas é ainda mais verdade que grande maioria não o é. E, duvido, que num curto espaço de tempo este cenário se inverta. Não porque as jogadoras não o desejem mas os clubes da Liga Allianz (já nem me atrevo a falar das restantes competições seniores) dispõe de orçamentos muito limitados e não terão capacidade para acomodar a rubrica “remunerações”. A realidade é assustadoramente oposta entre clubes como o Sporting CP e o SC Braga (antecipo que seja semelhante no SL Benfica) e os restantes clubes, a todos os níveis.

Obviamente, nem todas chegarão a profissionais mas o comprometimento com a modalidade não pode depender somente de uma eventual conjunto de compensações pelo esforço e dedicação. É que não adianta "exigir" mais condições aos clubes, nem dizer que é preciso mais treinos (ou outro tipo de apoio, e orientação) se as jogadoras não derem o seu máximo e se empenharem seriamente.

E não me atirem já pedras nem me ofendam porque sei bem que quem trabalha/estuda das 8h às 18h muitas vezes não tem vontade sequer para ir treinar quanto mais empenhar-se a fundo. E quem trabalha por turnos, com os ritmos biológicos todos alterados? Ou que tem que trabalhar na véspera de um jogo (ou até mesmo na manhã do dia do jogo), não tendo o descanso necessário para estar nas melhores condições no dia seguinte? Ou que tem que viajar mais de 400 km no dia do jogo, com hora de início para as 15h? Sim, todos estes cenários são a realidade da quase totalidade dos clubes que competem na Liga Allianz mas algumas variáveis dependem unicamente das jogadoras: o empenho, orgulho e muita paixão pelo futebol. O caminho rumo ao sucesso ficará invariavelmente mais curto. Ninguém diz que é um caminho fácil, longe disso. Há que abdicar de um conjunto de coisas próprias da idade durante o crescimento para se chegar ao topo. Mas quem define um objetivo e luta por ele terá a recompensa no final. Até porque um outro fenómeno pode emergir de forma galopante: a contratação de jogadoras estrangeiras para dar resposta imediata aos objectivos delineados pelos clubes (esta reflexão fica para nova oportunidade).

As seleções nacionais estão em franca ascensão mas esse caminho só continuará com a cooperação dos clubes e de como estes conseguirem cativar as suas jogadoras a manter o seu compromisso diário, sejam elas amadoras ou profissionais (provavelmente estas terão responsabilidade acrescida pois são o exemplo para as que um dia aspiram lá chegar).

O futuro do futebol feminino nacional é já amanhã, o sucesso vai depender da vontade e determinação das jogadoras em ultrapassar obstáculos mas só será escrito de acordo com a capacidade de sacrifico e superação desta nova geração.

Ou o futebol (como qualquer outro desporto, colectivo ou individual), não dependesse dos seus atores principais: os atletas.

(nota final: na próxima época a Liga feminina será designada de Liga BPI)

Texto publicado originalmente no sítio do Sindicato dos Jogadores.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Raparigas versus rapazes


 
 
O que acontece quando, a um lote de raparigas que querem jogar futebol e não têm competição própria, se juntam treinadores e dirigentes ousados e interessados em fazer com que essas jogadoras cresçam? Aguardam que chegue a idade própria para competirem entre pares, sujeitando-se a que, entretanto, algumas delas desistam do futebol e se virem para outro desporto?
Já foi assim, infelizmente.
Agora, aproveitando a onda de vitalidade que o futebol feminino tem, os clubes inscrevem essas equipas nas competições onde habitualmente só há equipas de rapazes.
Do que nos foi dado apurar, são cerca de uma dezena e evoluem um pouco por todo o país, distribuídas por sete associações.
Competindo no escalão sub/13, consoante as regras que as associações estabelecem para ajudar a encaixar na competição, as raparigas têm entre 13 e 15 anos. Fantástica esta abertura e elasticidade por parte dos órgãos associativos, demonstrando uma grande vontade em promover e fazer crescer o futebol feminino. Poderia dizer-se, somente, que é a sua obrigação, mas reconhecer o que está bem feito, para além de ser uma questão de justiça, é uma forma de cumprimentar quem se esforça por fazer com que as coisas funcionem. E, na verdade, todos nós gostamos de ser reconhecidos – é saudável esse sentimento.
Mea culpa, mas o primeiro contacto que tive com jogadoras deste escalão, e tipo de competição, foi no Torneio de Albergaria em Junho passado. E logo tive a sensação de que tinha andado a perder uma coisa fabulosa. Para quem, como eu, começou a jogar com 17 anos, apesar de jogar na rua com amigos desde a escola primária, ver a forma como estas miúdas evoluem em conjunto é fascinante.
Não se trata só da sua qualidade individual, que sim muitas têm-na em abundância, mas da forma como já se comportam tacticamente. E a isso não é alheia a qualidade de quem as orienta: tanto ao nível dos conteúdos de jogo, mas também, e talvez mais importante ainda, a forma como se relacionam com essas raparigas em formação. Como as chamam a atenção de forma quase privada, em contraponto com gritos desmedidos para dentro de campo, como explicam o que é para se fazer por ideias simples e de fácil entendimento, em contraponto com os clichés do futebol que só servem para os treinadores se exibirem, como exercem a sua autoridade com firmeza, mas sem hostilidade.
Todas estas qualidades são extremamente importantes num treinador/a de equipas de raparigas/mulheres, mas quando elas estão em idade de formação tornam-se fundamentais. É também chegada a hora dos dirigentes terem estas coisas em atenção quando contratam treinadores ou treinadoras para as suas equipas femininas. Vale a pena o esforço, porque os resultados serão visíveis no crescimento das jogadoras e da equipa.
Voltando ao assunto inicial, vale muito a pena seguir o trajecto de algumas destas miúdas que competem neste escalão. A dureza de jogar contra equipas masculinas dá-lhes uma maior capacidade de abordagem aos lances, e a todo o jogo em geral, e acredito que este será um caminho a ser seguido por mais clubes.
Até porque, a médio prazo, se estas jogadoras vierem a celebrar contratos profissionais, darão o devido retorno ao investimento que os clubes fizeram nelas.
 
[texto originalmente publicado no site do SJPF]

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Muda-se o "naming"... mantém-se tudo na mesma?

A propósito da celebração do contrato com novo patrocinador, Banco BPI e da redefinição do naming da Liga Feminina para Liga BPI levou-me a fazer algumas considerações se pensar que a UD Ferreirense teve que desistir da competição porque o clube fechou portas.

Aliás, este é o drama de todos os clubes "pequenos" que dependem da disponibilidade de um conjunto de pessoas, que por amor e dedicação ao clube não os deixam morrer. Mas, a determinada altura, independentemente dos motivos, essas mesmas pessoas desistem de lutar contra as adversidades, obstáculos e dificuldades e, por falta de alternativa, o clube encerra a sua atividade. Não serão tão poucos quanto isso mas quando se trata de um clube que tinha uma equipa a competir ao mais alto nível no futebol feminino nacional, as noticias correm depressa. Infelizmente, digo eu para as gentes de Ferreiros mas, especialmente, para as jogadoras e demais elementos que integravam esta equipa.

Retomando ao titulo do texto, a questão que levanto é se não se pode ponderar, nesta nova parceria, a possibilidade de serem facultados mais apoios aos clubes que disputam as competições femininas. Bem sei que a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) não tem (diretamente) essa responsabilidade mas, a exemplo do que ocorre na Taça de Portugal masculina, não será viável a atribuição de um valor de participação, desde a primeira eliminatória, às equipas participantes? Não tenho qualquer intenção de sugerir esse valor (desconheço os montantes negociados com o BPI e a percentagem que será alocada ao futebol feminino) mas creio que seria uma motivação adicional para todos os clubes. Numa época que tanto se fala e discute a igualdade de género será da mais elementar justiça que a FPF possa dar um passo em frente.

Não tenhamos ilusões. Excluindo os chamados clubes grandes, os restantes debatem-se com enormes dificuldades para poderem desenvolver a sua atividade. As fontes de receita são limitadas e os patrocínios escasseiam. Não obstante, assiste-se (felizmente) a que nenhuma adversidade e conhecimento desta realidade tem afastado os clubes de criarem equipas de futebol feminino, especialmente nos escalões de formação. O que não deixa de ser curioso pois daqui poderá surgir uma fonte de receita adicional devido ao valor que o clube poderá ser ressarcido (em caso de transferência) pelos anos de formação da atleta.

No limite, todas as melhorias nas condições dos clubes, irão beneficiar diretamente as seleções nacionais femininas pelo que a FPF irá obter, a um nível diferente, o retorno do investimento efetuado.

Mas esta é só a minha opinião pessoal. 
Todas são válidas e podem ser partilhadas.
Quem aceita o desafio?

(Texto de Maria João Xavier publicado originalmente no sítio do Sindicato dos Jogadores)

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A lógica das escolhas femininas

O que leva uma jogadora trocar a Liga BPI pelo Campeonato Nacional da II Divisão (designação para 2018/2019 do Campeonato de Promoção), uma jogadora sub/18 preferir estar num clube de maior dimensão não jogando, do que estar num mais pequeno competindo todos os fins de semana (e assim trabalhar a sua evolução) ou ainda trocar a profissionalização num campeonato competitivo no estrangeiro, para ser profissional na equipa mais forte em Portugal, mas cuja competição não traz dificuldade digna de relevância e em que a única incógnita é saber a quantas jornadas do fim serão campeãs?
 
Nem sempre são lógicas e ambiciosas as escolhas das jogadoras portuguesas.
Num contexto ainda maioritariamente amador, razões como "gostarem do treinador, terem amigas na equipa" têm um peso maior na escolha da equipa do que objectivos competitivos. Ainda se opta muito pelo confortável e poucas são as que fazem uma inflexão e rumam para fora da zona de conforto.
Com a entrada de clubes como Sporting, Braga e Benfica surge uma nova opção. Poder trabalhar profissionalmente deixa de ser uma miragem em Portugal. Mas ainda assim, há quem faça escolhas mais com o coração do que com a razão. Doutra forma, como aceitar uma transferência quando se está num lote de terceiras escolhas para jogar?
Podemos argumentar que alguém tem de fazer essas opções e, de facto, assim é.  Mas quando ainda vivemos uma realidade em que as jogadoras de topo não são suficientes para preencher sequer metade das equipas da Liga Allianz, o desejável para a dinamização da competitividade seria que todas optassem por escolher a dificuldade, porque traz evolução, em vez do conforto.
Mas o desejável nem sempre é o que acontece e as escolhas das mulheres têm sempre uma forte componente emotiva.
Longe de ser uma crítica, até porque eu sou uma defensora das escolhas baseadas na felicidade a tout court, é mais uma constatação.
E que deve sempre ser tida em conta, quando se fazem grandes planos e projectos para o desenvolvimento do futebol feminino. Há uma variável bastante significativa que representa o espírito feminino, o seu estado de espírito mais propriamente, que não se compadece da previsibilidade necessária quando se projecta algo.
Isto não significa que as mulheres jogadoras não sejam confiáveis. São-no com uma determinação e entrega muito acima da média. Mas também se amofinam, ou se entusiasmam com maior frequência.
Com projectos profissionais as coisas tenderão a estabilizar? Talvez sim. Mas o futebol feminino em Portugal está longe de ter um panorama significativo de jogadoras profissionais. E, portanto, a maioria continuará a tornar a silly season do futebol, o chamado defeso, num vai e vem que entusiasma quem de fora observa.
E dá alguma vivacidade aos projectos.
 

terça-feira, 19 de junho de 2018

2017/2018 - A época em revista


A época que agora terminou confirmou todo o potencial da equipa do Sporting CP que revalidou o título nacional da Liga Allianz, reconquistou a Taça de Portugal e adicionou a estes troféus a conquista da Supertaça, tendo sempre como adversário direto o SC Braga.

A época começou bem cedo para o Sporting CP com a participação no mini torneio de qualificação para a UEFA Women's Champions League (UWCL), realizado em Budapeste, Hungria. Nesta primeira participação a equipa verde e branca não conseguiu passar à fase seguinte, após ter perdido o jogo inaugural.

Internamente, a época começou a 3 de setembro com a realização da Supertaça tendo como equipas os suspeitos de sempre, Sporting CP e SC Braga. O jogo, analisado na altura, valeu pela emoção e incerteza do resultado, especialmente quando o SCP empata já em período de compensação e leva a decisão para prolongamento. Nestes 30 minutos, o SCP revelou-se melhor a todos os níveis o que não é de estranhar dado que nesta altura já tinha realizado jogos altamente competitivos como os que são os do MT da UWCL. Este foi talvez em toda a época o jogo em que o SC Braga esteve mais perto de derrotar o Sporting CP e conquistar o seu primeiro troféu, desde que regressou à modalidade.

A Liga Allianz muito cedo ficou decidida contrariamente ao que os treinadores sempre deram a entender (o que se percebe, há que motivar as jogadoras e manter os adeptos em redor das equipas). Ao triunfar em Braga, na 3ª jornada (30 de setembro 2017), a equipa leonina deu um passo de gigante rumo ao bi campeonato, como viria a acontecer. O empate verificado em Vila Verde pelo SC Braga na 6ª jornada aumentou a diferença pontual para 5 pontos, sendo que a 5 de novembro a Liga Allianz estava entregue. Para poder aspirar a mudar este cenário o SC Braga teria que ter feito muito mais no jogo em Alvalade, mas o jogo foi muito pouco emotivo.

Uma palavra de reconhecimento a todas as outras equipas que participaram na Liga Allianz, que lutam com "armas" desiguais quando comparado com estas duas grandes equipas. Nem o Estoril Praia, que se reforçou e bem para os lados de Benfica conseguiu fazer mossa pese embora o empate alcançado quando recebeu o Sporting CP. A diferença de argumentos é abissal e assim irá manter-se (ou até mesmo aumentar).

Admito que este texto peca por não ter uma abordagem ao Campeonato de Promoção. Não porque seja uma competição menor mas por manifesta falta de disponibilidade para acompanhar estes jogos. Sei, todavia, que há muitas jogadoras com enormes potencialidades e que aguardam a sua oportunidade para dar o salto para uma equipa de nível superior.  Deixo o desafio a quem segue esta competição para relatar as incidências da mesma. Até porque a conquista do título por parte da Ovarense está envolta em grande polémica e seria importante que tudo ficasse devidamente esclarecido em nome da verdade desportiva.

A Final da Taça de Portugal, disputada no final de maio foi outro espetáculo fantástico. Mais uma vez, a vitória sorriu ao Sporting CP, já no prolongamento, depois de um jogo em que o SC Braga viu um golo ser anulado (e bem) pelo VAR e dispôs de várias oportunidades flagrantes para se adiantar no marcador. O disparo a mais de 30 metros da Diana Silva só parou no fundo das redes da Rute Costa.

Umas notas finais para a seleção feminina. A eliminação da fase final do Campeonato do Mundo de 2019, em França ficou consumada no passado dia 8 de junho, com a derrota em Florença, contra a Itália. Portugal iniciou esta caminhada com a moral em alta depois da participação história no EURO 2017, na Holanda. O grupo não se antevia fácil mas permitia efetivamente sonhar com a qualificação. A derrota no jogo inaugural, contra a Bélgica, foi um enorme balde de água fria mas nada estava perdido. Portugal retomou a senda vitoriosa impondo uma goleada à Moldávia e ganhava alento para o jogo contra a Itália, realizado no Estoril. Se há jogo que em que a sorte não protegeu Portugal e nada quis connosco foi este. O pragmatismo italiano voltou a fazer das suas.

Pelo meio, Portugal realizou um brilhante percurso na Algarve Cup, garantindo um 3º lugar nunca antes alcançado e mostrou toda a sua evolução a países que normalmente não se cruzam no nosso caminho. As opiniões foram unânimes mas esta foi a que eu melhor retive.

Agora é tempo de recuperar e recarregar baterias. As exigências da próxima época estão aí à porta. O Sporting CP é o primeiro a entrar em ação com a participação, novamente, no mini torneio de qualificação para a UWCL, logo no inicio de agosto (a época será longa).

Para a próxima época teremos outros motivos de interesse e que vão aumentar seguramente a visibilidade do futebol feminino nacional. Refiro-me, especialmente, ao arrancar da equipa do SL Benfica e das suas legitimas aspirações a chegar à final da Taça de Portugal.

Mas sobre isto, falaremos noutra oportunidade.

Agora é tempo de apoiar a nossa seleção maior no Mundial da Rússia.

Boas férias.