domingo, 27 de maio de 2018

A Festa do Futebol volta ao Jamor – Final da Taça de Portugal Feminina

Tenho assistido com enorme perplexidade aos acontecimentos que têm envolvido a instituição Sporting CP.

O ambiente tenso que se vive em Alvalade não permite serenidade para nenhuma das modalidades que ainda se encontram em competição e com títulos para conquistar. Mas, mais preocupante (na minha perspetiva) é como vão preparar a próxima época com tamanha instabilidade. Porque não haja ilusões, o Sporting CP tem 55 modalidades, todas elas com provas dadas e títulos conquistados, mas a força motriz dos clubes é o futebol profissional, que gera receitas e convence patrocinadores.

Mas o título deste texto diz respeito à segunda competição em Portugal relativamente ao futebol feminino e que garantidamente o Sporting CP vai querer ganhar e proporcionar mais uma alegria aos seus adeptos e associados. Do outro lado estará o SC Braga, uma equipa serena e que tem preparado a grande final sem o reboliço de emoções (que também é disso que se trata) e que, claramente, irá aproveitar (se a oportunidade surgir) as mazelas que estas últimas semanas têm deixado em qualquer atleta que represente o clube verde e branco.

Acredito que a equipa técnica do Sporting CP esteja a fazer os possíveis para proteger o grupo de trabalho, a desenvolver o seu trabalho e a preparar o jogo do próximo domingo com enorme cuidado. Ao contrário do ocorrido na mesma competição na versão masculina, no passado dia 20 de maio, não estamos perante dois adversários com qualquer tipo de desnível... Nem o Sporting CP é o Golias e muito menos o SC Braga será em momento algum o David. A época assim mostrou que a reconquista da Liga Allianz pelo Sporting CP se decidiu em detalhes, especialmente no jogo em Braga. Espero que a final do próximo dia 27 não se resolva em detalhes, mas sim que seja mais um excelente espetáculo de futebol.

O empate não será resultado possível e subir à escadaria enquanto vencedor é algo inexplicável para qualquer jogadora e elemento da equipa técnica. O Sporting CP já viveu esses momentos a época passada enquanto equipa e tem no seu plantel atletas repetentes por outros clubes. O SC Braga vai garantidamente desenvolver todos os esforços para impedir o clube de Alvalade de repetir a façanha e, naturalmente, vai colocar em campo a estratégia que melhor se adequará para conquistar o primeiro troféu do seu historial após o regresso da modalidade ao clube.

É minha perceção que o Sporting CP irá sentir mais a responsabilidade do jogo e o peso que ele acarreta para os adeptos e associados leoninos, que necessitam urgentemente de uma vitória e outro troféu para poderem serenar os ânimos que tão exaltados têm andado.

O SC Braga "não tem nada a perder", sentindo igualmente a responsabilidade do jogo, mas sem ter a carga emocional adicional que as jogadoras do Sporting CP vão ter de lidar do início ao fim do jogo.

Desejo sinceramente que os adeptos de ambos os clubes se desloquem massivamente ao Jamor e celebrem a Taça com a festa que a caracteriza e que consigam colorir o Estádio Nacional com as cores dos dois clubes.

A moldura humana (nada desprezível) da época passada com mais de 12 mil espetadores (tomara grande parte dos clubes da Liga NOS terem essas assistências em todos os seus jogos) será sempre uma das imagens que guardo com maior carinho e orgulho de um jogo de mulheres e raparigas.

Que seja mais um dia memorável desta modalidade que nos apaixona.

Bom jogo e boa sorte para todos os intervenientes!

(texto publicado originalmente no sítio do Sindicato dos Jogadores).

"Minas de futebol" - o convite do Offside Lisboa

Offside Lisboa, um Festival de Cinema e Bola, convidou-nos para fazermos a apresentação do filme "Minas de Futebol". Para um público maioritariamente desconhecedor da realidade do nosso futebol feminino, procurámos com o relato da nossa experiência pessoal preparar o terreno para a projecção do filme. Fica aqui um pequeno vídeo para quem não esteve lá e para memória futura. 



quinta-feira, 3 de maio de 2018

Carla Couto, dá-me um autógrafo!

 

Dela, Carla Couto, já toda a gente minimamente ligada ao futebol feminino, e não só, ouviu falar.
O seu talento acima da média fê-la projectar-se ao nível do Olimpo português: a mais internacional, numa altura em que os jogos de selecções não eram tão frequentes, marcadora de golos acima da média, aliados a uma grande elegância dentro de campo.
Partilhámos o balneário, em 1992/93, no Sporting Clube de Portugal. Ela uma jovem cheia de irreverência, alguma indisciplina que não ofensiva, de sorriso no rosto a roçar alguma timidez. A acompanhá-la, indefectivelmente, o pai. O senhor Couto, homem afável e sempre com uma palavra de apoio para todas as jogadoras. (Saudades de pessoas como ele, no futebol).
Aí começava aquela que seria uma carreira brilhante e que todos já conhecem.
O que seria expectável, quando deixasse de jogar e à semelhança de quase todas as ex-jogadoras, é que ela se remeteria a ocupar a sua vida com qualquer outra coisa e, hoje, já só vagamente se falaria dela - apesar do título de jogadora do século.
Mas a Carla, fazendo jus aquela imprevisibilidade que fazia dela uma jogadora muito difícil de travar, surpreendeu-nos a todos. E, à boleia de um Sindicato de Jogadores presidido por alguém que sabe que só com os melhores os frutos aparecem, iniciou um novo percurso no futebol: o de embaixadora do futebol feminino. E quando se ouve a palavra "embaixador/a" fica-se sempre com a sensação de que é um cargo decorativo. Para outros talvez seja, mas não para a Carla. Não para a Carla Couto.
A Carla, aquela que brilhava lá na frente, após o trabalho esforçado de toda a equipa, aquela que durante anos não defendia, desta feita arregaçou as mangas, pegou nas ferramentas que o Sindicato lhe deu e transformou-se no maior veículo vivo de promoção do futebol feminino. Através de visitas às equipas, falando com as jogadoras, apelando ao seu sentido associativo, alertando para os perigos do deslumbramento, mas defendendo as suas condições com veemência junto do próprio Sindicato, percorrendo o país sempre solícita a quem por ela chama, a sua dedicação à modalidade é a todos os níveis ímpar e inatacável.
No passado dia 1 de maio, em Penacova, foi-lhe feita uma homenagem. Daquelas que perduram no tempo. Fizeram um torneio com o seu nome e atribuíram o seu nome a uma academia que pretende dedicar-se ao futebol feminino. Não poderiam escolher melhor figura e o que se deseja é que aquela placa ali se mantenha por muitos e bons anos dando frutos. E quem sabe, dali não saia uma sucessora.
Mas, de todo o evento, aquilo que mais me tocou foi a sessão de autógrafos.
Jovens jogadoras, levadas pelo entusiasmo do que ouviram contar e do que viram, à espera de uma recordação. Mas, e aqui surge o mais importante, esperando pela sua assinatura, pequenos jogadores atentos. E não estavam à espera da assinatura de uma jogadora do seu clube - isso seria demasiado fácil de acontecer.
Não. Estavam ali à espera do autógrafo daquela que eles ouviram falar que tinha sido uma grande jogadora. Sem preconceitos, sem vergonha, assumidamente - realmente, teremos sempre a aprender com as crianças. E este jovens jogadores, serão adolescentes, adultos e pais. E, certamente, olharão para o futebol feminino com respeito, com igualdade.
E esse mérito está, não só por causa do seu talento, mas porque a Carla é uma pessoa cheia de carisma. Simples, com uma alegria infantil, contagiante, que faz eco junto dos mais novos. E eles sentem-se bem recebidos e em pé de igualdade.
 
E, por tudo isto, pela gratidão que tenho por quem tão bem cuida de um futebol feminino tão caro para mim...
 
... Carla Couto, dás-me um autógrafo?
 
 
 
[créditos fotográficos Sports and Girls]
 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Era uma vez…


Todas as histórias começam assim e esta não será diferente. O que me proponho com este texto é descrever a minha visão do aparecimento e crescimento da seleção nacional feminina. Podem questionar-se o porquê de ter decidido agora dedicar umas linhas a este tema. Pensem neste texto como um tributo pessoal a todas as jogadoras que lutaram ano após ano por melhores condições que conduziram ao lugar onde se encontra a seleção nacional atualmente. Além disso, na minha humilde opinião todas as antigas jogadoras devem ver reconhecido o seu esforço. Adicionalmente, a minha decisão também se justifica por si só no facto de não ser um conto de fadas e os primeiros tempos terem sido difíceis com inúmeros obstáculos. Que possa servir de exemplo a não repetir por mais nenhuma instituição que queira promover o futebol feminino.

O primeiro jogo da seleção nacional disputou-se em França, a 24 de outubro de 1981 e o resultado final foi um empate sem golos. Não é uma história antiga mas revela que Portugal esperou 36 anos para se qualificar para uma grande competição (EURO 2017, na Holanda).

Nesta primeira década, a seleção nacional disputou 8 jogos (entre 1981 e 1983). O futebol feminino encontrava-se em franco desenvolvimento pela europa fora e os resultados alcançados demonstravam que Portugal estava no bom caminho para se tornar uma seleção forte na europa. Eu vi o meu primeiro jogo da seleção nacional em lisboa, a 4 de dezembro de 1982. Tinha 11 anos e já jogava futebol num clube de bairro. Recordo-me perfeitamente de ter pensado “um dia vou querer representar a seleção do meu país”.

Mas, sem qualquer aviso, a Direção da Federação Portuguesa de Futebol decidiu suspender a atividade da seleção nacional. Foi uma decisão catastrófica como veremos mais adiante. Mas, o mais estranho desta decisão foi que o Presidente da FPF à data era membro do Comité de Futebol Feminino da UEFA. A decisão não foi entendida por ninguém e por largos anos a evolução do futebol feminino nacional ficou adiada. O sonho das jogadoras foi ceifado, continuaram a jogar o seu desporto de eleição mas sem qualquer esperança de um dia representarem a seleção nacional.

As jogadoras portuguesas tiveram que esperar dez anos para que os seus sonhos se tornassem novamente realidade. Assim, em 1993, pela mão de Carlos Queiróz, assiste-se ao retomar da atividade da seleção feminina. O seleccionador nacional escolhido foi o magriço António Simões, um dos melhores jogadores portugueses de sempre, que integrou as fantásticas equipas do SL Benfica e da seleção nacional, que em 1966 participou no mundial de Inglaterra, onde alcançou um brilhante 3º lugar.

 "Record" setembro 1993
Para o primeiro estágio de observação, realizado em setembro de 1993, foram chamadas 66 atletas. Como se compreende, o seleccionador nacional e restante equipa técnica não tiveram oportunidade de ver as jogadoras a atuar nos seus clubes de forma que a responsabilidade de indicar quais as atletas a convocar foi delegada  nos treinadores dos respetivos clubes que competiam no Campeonato Nacional.

Neste primeiro estágio de observação as jogadoras foram separadas em várias equipas e jogaram todas umas contra as outras. Foi a forma encontrada pelas várias equipas técnicas da FPF para conseguirem observar todas as jogadoras em ação e, desta forma, reduzir o enorme grupo num mais pequeno.

No segundo estágio de observação já só foram convocadas 35 jogadoras. O objetivo era conseguir reduzir o grupo às 25 melhores jogadoras nacionais e, desta forma, iniciar a qualificação para o europeu de 1995, que se iria realizar na Alemanha.

Mas, antes de começar a qualificação para a competição referida, Portugal realizou um encontro particular contra a seleção da Suécia sub 20. Foi o primeiro jogo após 10 anos de interregno. As jogadoras estavam nervosas e sentiram o peso da camisola mas sentiram-se orgulhosas assim que o hino nacional começou a ecoar nos altifalantes do Estádio S. Luís, em Faro. Esse sentimento foi transversal aos espectadores presentes, muitos deles jogadoras e ex jogadoras. Eu era uma delas. Eu não fui seleccionada para o grupo final de 25 jogadoras e reconheço que estava bastante desanimada nesse dia mas nada disso era importante comparando com a emoção de ver a seleção nacional voltar novamente ao ativo. Finalmente, o sonho tinha-se tornado realidade e eu teria a oportunidade de poder representar o meu país. A responsabilidade de merecer uma oportunidade por parte da equipa técnica era minha. E iria fazer tudo que estivesse ao meu alcance para que ela aparecesse.

O resultado não foi o desejado (Portugal perdeu 0- 3) mas permitiu-nos perceber que os 10 anos de interregno de competição foi o pior inimigo para o crescimento.
"Correio da Manhã" novembro 1993


O primeiro jogo oficial após 10 anos de interregno foi realizado em Faro, a 11 de dezembro de 1993, contra a França e a contar para o apuramento para o campeonato da Europa de 1995. Mais uma vez, fiquei de fora das opções do seleccionador nacional mas desloquei-me ao Algarve para assistir ao jogo. Portugal perdeu mas fez um grande jogo, nunca se amedrontando contra uma equipa de nível superior, de tal forma que se não soubessem do nosso interregno ninguém diria que era o primeiro jogo ao fim de 10 anos.

A seleção nacional perdeu os 4 jogos seguintes. Estávamos em fase de construção de uma nova equipa, a diferença entre várias selecções europeias era enorme, especialmente as selecções nórdicas (Suécia, Dinamarca e Noruega), França e Alemanha. No entanto, as jogadoras portuguesas nunca desistiram e procuraram incessantemente a vitória. Nesta altura, os objetivos para a equipa eram definidos jogo a jogo. O primeiro era marcar um golo (que veio a ocorrer no jogo em Fiães, em março de 1994, contra a toda poderosa Itália).
"Record" março 1994

A primeira vitória ocorreu na 1ª edição da Algarve Cup (à data designada de Mundialito de Futebol Feminino), no longínquo ano de 1994, contra a Finlândia, após derrotas nos jogos de grupo contra os EUA e a Suécia.

Na qualificação para o EURO 1995 Portugal alcançou 3 vitórias, duas contra a Escócia (no jogo realizado em Sterling a falta de hino nacional foi o mote para a primeira vitória fora e no jogo em casa, em Almeirim, a primeira goleada infligida pela seleção nacional 8 -2) e contra a Itália, no jogo realizado em Carrara. Foi um escândalo mas a vitória foi inteiramente merecida. Por vezes a falta de humildade e o menosprezo por equipas de nível inferior proporciona este tipo de vitórias. Itália provou do seu próprio veneno). Razão tinha o seleccionador nacional…

"A Bola" junho 1994
A equipa continuava o seu processo de crescimento mas teve sempre que enfrentar inúmeras dificuldades. As mais evidentes eram a falta de estágios de observação ou a realização de jogos particulares. Era frequente a seleção não se juntar por mais de 6 meses o que condicionava o nosso crescimento sustentado. Não sei se alguém que nos lê alguma vez sentiu o querer fazer mais (e melhor) e o corpo não responde às nossas ordens. Infelizmente senti isso mais vezes do que desejaria em muitos jogos. A sensação de impotência foi algo que acompanhou nos períodos iniciais quando em confronto com as melhores jogadoras mundiais. Mas era com estas que podíamos crescer, com aquelas que nos causavam dificuldades e desafiavam todas as nossas qualidades. Não tenho qualquer vergonha em assumir que a seleção portuguesa, não tinha condição física para jogar 90 minutos. A nossa condição física era suficiente para a competição interna (campeonato distrital e campeonato nacional) mas era débil e longe do exigido para os jogos internacionais. Era frustrante mas o pensamento das jogadoras foi sempre “temos que melhorar, é imperioso que consigamos mostrar que temos qualidade para ganhar a algumas das melhores equipas”. Porque, no final o que conta e fica registado é o resultado. E não era muito agradável somar goleada atrás de goleada.

Até ao final da década 1990-1999, Portugal conseguiu, pela primeira vez, qualificar-se para os jogos de playoff tendo em vista o Europeu de 1997 (Noruega). Foi, sem dúvida, uma importante conquista para o futebol feminino nacional e acabou por o mote para continuarmos a crescer e melhorar o nosso desempenho. Não conseguimos a qualificação (o nosso adversário, a Dinamarca seguiu para a fase final da competição) e Portugal teve que esperar até 2017 para viver esse momento único, 20 anos depois. As sementes levaram 20 anos a crescer! Mas agora não há volta possível. O único caminho é seguir em frente e continuar a crescer!

Nesta década, a seleção nacional disputou 69 jogos (vitória 15; empate: 6; derrota: 48) e teve dois seleccionadores nacionais. O já referido António Simões (1993-1996) e Graça Simões (1996-2000). Ambos realizaram o seu trabalho o melhor que conseguiram com as poucas condições disponibilizadas pela FPF na altura. Mas, ainda assim, Portugal foi crescendo, ainda que timidamente. Não há qualquer hipótese de comparação para o que existia há 30 anos para o que é realidade nos dias de hoje. Por vezes penso até onde aquele grupo de jogadoras podia ter chegado se tivessem disposto das atuais condições. Mas é um exercício inglório pois as mudanças observadas ao longo dos últimos anos foram tantas que é utópico sequer pensar em comparações. O legado da Graça Simões foi conduzir Portugal, mais uma vez, aos jogos de playoff para o Europeu de 2001 (Alemanha). Mas, no final da época de 1999/2000 o seu contrato de trabalho não foi renovado e um novo seleccionador nacional foi apresentado e orientado a seleção portuguesa nesses dois jogos, Nuno Cristóvão. De igual modo, Portugal não conseguiu a qualificação mas melhoramos o registo anterior, ao alcançar uma vitória no jogo em casa, disputado em Portalegre, sob condições meteorológicas adversas e impróprias para a prática desportiva, fosse ela qual fosse.

A década seguinte deveria mostrar o crescimento da seleção nacional mas na verdade não foi o que aconteceu. Em julho de 2003 foi elaborado o primeiro ranking para selecções femininas pela FIFA. Portugal ficou colocado na 34ª posição. O trabalho desenvolvido pelo seleccionador nacional Nuno Cristóvão foi de enorme qualidade e foi sob proposta sua (e aceite pela FPF) que surgiu pela primeira vez uma seleção de formação, na altura sub 18, que daria lugar posteriormente origem à de sub 19. Esta foi outra enorme conquista para o futebol feminino nacional e permitiu à nova geração de jogadoras (grande parte integra atualmente a seleção feminina que tão boa conta tem dado de si) a oportunidade de iniciar o crescimento internacional mais precocemente. Mas, mais uma vez, quando as selecções começavam a dar mostras do seu crescimento e outras medidas iam sendo desenvolvidas, o seleccionador Nuno Cristóvão cessa funções na FPF, no final da época 2003/2004. O período mais negro, de sempre, da selecção nacional estava para chegar.
PrintScreen sítio internet FIFA


O novo seleccionador nacional, José Augusto (2004-2007), que foi colega de equipa do António Simões no SL Benfica e na seleção nacional foi o escolhido. E, durante o período que esteve em funções, a seleção nacional caiu da 34ª para a 47ª posição. Foram tempos complicados em que a insatisfação e desilusão das jogadoras era difícil de esconder. Os 3 anos que o Sr. José Augusto comandou a seleção nacional causaram os mesmos estragos que os 10 anos sem competição. Era necessário, mais uma vez, renascer a seleção nacional. Se não acreditam no que digo (que é legítimo), olhem novamente para a figura do ranking. Foram precisos mais 10 anos para subirmos até ao 36º lugar, onde nos encontramos atualmente. E pouco mais há a acrescentar, a não ser que foi uma péssima decisão (na altura) da direcção da FPF interromper o trabalho que estava a ser desenvolvido pelo anterior seleccionador.

No período compreendido entre 2000 e 2009, a seleção nacional disputou 94 jogos (vitória: 19; empate: 13; derrota: 62).

De 2007 ate 2011, foi apresentada a nova seleccionadora nacional, Mónica Jorge, que até então fora treinadora adjunta e que tinha entre mãos a delicada (e enorme) tarefa de reverter todos os estragos causados pelo anterior seleccionador nacional. Mónica Jorge manteve-se no cargo ate ao final de 2011, altura em que integrou uma das listas que concorreu e venceu as eleições para a direcção da FPF. Atualmente, é Diretora da FPF para o futebol feminino. No período de transição, a seleção nacional foi orientada por outros treinadores nacionais (Susana Cova, Pedro Roma,..), tendo num curto período regressado António Violante, que tinha sido adjunto de António Simões, no regresso da seleção em 1993. Finalmente, em fevereiro de 2014, é apresentado o atual seleccionador nacional, Francisco Neto, que já antes tinha colaborado com a FPF na qualidade de treinador de guarda-redes.

E, concorde-se ou não, foi com a Mónica Jorge na direcção da FPF que se alcançaram os melhores resultados desportivos e o crescimento foi sendo consolidado:
  • Qualificação para a fase final do EURO sub 19, 2012 (Turquia);
  • Qualificação para a fase final do EURO sub 17, 2013 (Inglaterra);
  • Qualificação para a fase final do EURO 2017 (Holanda);
  • 3º Lugar na Algarve Cup 2018 (Portugal);
  • Início de atividade de selecções de formação: sub 16 (2014) e sub 15 (2017);
  • Desenvolvimento das competições nacionais;
  • Aumento do número de praticantes em todos os escalões etários;
  • Envolvimento das associações regionais para a importância e relevância do futebol feminino nacional no panorama desportivo;
  • Criação de uma nova competição, Supertaça Allianz;
  • Reorganização de competições nacionais sub 19 e sub 17.
Podia continuar a enumerar mais algumas medidas desenvolvidas desde que a Mónica Jorge assumiu o cargo na direcção mas creio que o mais importante é salientar que ela enfrentou as mesmas dificuldades e barreiras que todos os anteriores seleccionadores de forma que ela sabia o que era preciso fazer para inverter o cenário. Naturalmente que não fez tudo isoladamente. Toda a direcção da FPF está comprometida com o crescimento e desenvolvimento do futebol feminino nacional e apoiaram as mudanças necessárias. E os resultados estão a aparecer, não só na seleção sénior mas também nas selecções de formação.

MJX - dados retirados do sítio da internet FPF
Mas, a questão que se impõe: estamos efectivamente a crescer ou será apenas mais um período bom? Não, a seleção nacional está efetivamente a crescer! Se analisarem o gráfico rapidamente perceberão que estamos a reduzir a percentagem de derrotas e a aumentar a percentagem de vitórias. Não menos importante é observar o aumento do número de jogos disputados de uma década para a outra. Na minha opinião, juntamente com a melhoria altamente significativa das condições de treino e apoio da FPF, é o aumento dos confrontos internacionais que está a permitir a seleção portuguesa de crescer com consistência. De 2000-2009 (94 jogos) para 2010-2019 (121), a selecção nacional já jogou mais 27 jogos que na década anterior. E este valor vai, obviamente, aumentar. Podem ainda relembrar o que já foi escrito neste blogue sobre este tema e rever uma versão condensada desta história.

De qualquer forma, a FPF terá que dar um passo seguinte: envolver e auxiliar os clubes para que estes possam oferecer melhores condições às jogadoras. Pode parecer que não é responsabilidade direta da FPF assumir este papel, mas se assim não for, dificilmente se pode dar o salto qualitativo seguinte. Bem sei que temos dois clubes da Liga NOS (Sporting CP e SC Braga), em que as jogadoras são profissionais e dispõe de condições de excelência para desenvolverem o seu trabalho. Mas não é nem será suficiente. A tendência, se nada for entretanto executado, é para piorar. Estas duas equipas não vão conseguir absorver todas as jogadoras que começam agora a despontar levando a que estas tenham que procurar outros clubes (nem mesmo que criem equipas B, algo que o SC Braga já dispõe). Basta pensar nestas gerações que integram as atuais selecções jovens. Se estivesse no lugar delas iria procurar e exigir melhores condições no meu clube. Eu iria querer continuar a desenvolver as minhas capacidades e competências. Mas sei que para isso, não posso treinar somente 3 vezes por semana e em alguns dos casos, terei que repartir o campo com outra equipa do clube. Além que precisaria de outro tipo de aconselhamento uma vez que todos os detalhes são importantes e irão diferenciar-me entre ser uma boa jogadora ou uma jogadora de excelência.

Estou em crer que este será o próximo desafio para a FPF, para as associações regionais e para os clubes: como podemos potenciar a qualidade e competitividade das nossas competições internas (Liga, Taça de Portugal e Supertaça, bem como as competições de formação) e com isto permitir que as nossas selecções nacionais alcancem melhores resultados ano após ano!

Ambas estão relacionadas!

Acredito que estamos no caminho correto. Acredito, também, que não há retorno possível que nos faça cair, mais uma vez!

End of story!

Once upon a time...


This post intends to describe my view on the beginning and the growth of the women's national team (WNT) in Portugal. At least I’ll try, as this will be my first ever post written in English. You may be wondering I would why I chose to do so now. Think about this post as a tribute to all the former players that fought for better working conditions, year after year, to take the national team where it is now. Also, in my humble opinion, former players deserve recognition for their efforts.
Let's begin!
The first match ever played was held in France and the result was a goalless draw. The kick off was in October 24, 1981 which means this story is not that old. However it shows that the WNT took 36 years to qualify for a major competition (EURO 2017, The Netherlands).
In this first decade, the WNT played a total of 8 matches (between 1981 and 1983). Women's football was growing quickly in Europe and the results showed that the Portuguese WNT was in the right path in order to become a strong team in Europe. I watched my first match of the WNT in Lisbon, December 4, 1982. I was 11 years old at the time and I was already playing football in a neighbourhood team. I remember thinking “one day I want to represent my country”.
But suddenly and without any warning, the Portuguese FA decided to shut down the WNT’s activities. It was a catastrophic decision as we will see further on. The strangest thing about this decision is that the Portuguese FA’s president at that time was a member of the UEFA Women's Football Committee. No one understood that decision which postponed the evolution of women’s football in Portugal for some long. The players’ dreams were stopped but they still kept playing football in their clubs despite not having any hope of representing their national team again.
Portuguese players had to wait ten (10!!) years for their dreams to become true again. In 1993, by the hand of Prof. Carlos Queiróz, the Portuguese FA began (for the second time) the WNT activities. The chosen head coach was Mr. António Simões, one of the best Portuguese players ever, part of the magical team of SL Benfica and national team that took part of 1966 World Cup.

Portuguese newspaper - roster for the first training camp (1993)
66 players were called for the first training camp, in September 1993. Since Mr. Simões and his staff didn't have time to watch every player in action the decision to choose the players had been delegated to the clubs’ coaches.
In that first training camp the players were separated in different teams and played all against all. It was the way found by the Portuguese coaching staff to reduce that huge group into a smaller one.

For the second training camp only 35 players were called. The aim was to find the best 25 players to start the qualification for the EURO 1995 (Germany).
However just before that, the WNT had a friendly match against the under 20 WNT from Sweden, in Faro (Algarve, Portugal). It was the first match in 10 years. The players were nervous and felt the weight of the national shirt but also they felt tremendously proud when the national anthem started. It was a proud moment shared even by the spectators in the stadium, many of them players themselves. I was one of them. I was not chosen for the last 25 group of players. I recognise I was very disappointed that day but that was not important comparing to the emotion of watching the national team playing. However that dream did come true. I would have the chance to represent my country. It was finally my responsibility to show to the national coaches that I deserved my chance.
The result was not what we had wished for (Portugal lost 0-3) but it allowed us to understand that those 10 years without competition had been our own worst enemy.

Portuguese newspaper - reference to the first win of the WNT (1994)
The first official match after the return or the team was against France, in Faro, on December 11, 1993. I wasn't call up, once again, but I did go to Algarve to watch the match. Portugal lost despite having played a very good match. If one didn’t know the story, nobody would say that that was the team’s first match in 10 years.
The Portuguese WNT lost the following 4 matches. We were building up a new team; the gap between other national teams across Europe and ours was huge. However, the Portuguese players never gave up and continuously chased a victory. The objectives were defined match after match. The first was to score a goal (it happened against Italy in March, 1994).
The first win occurred in the 1º edition of the Algarve Cup back in 1994, against Finland after losing to USA and Sweden in the group stage.
In that qualifying group for the EURO 1995, Portugal achieved three victories: two against Scotland and the other against Italy in the away match. It was a scandal for the Italians.
The team was growing but always had to face many difficulties. The training camps weren't held often and sometimes the players would go more than 6 months without getting back together. This didn’t allow the team to grow consistently. I don’t know if you ever felt that you want to do more but your body just doesn't obey your orders. Unfortunately, I felt that in more matches than I wanted to. The Portuguese team wasn’t able to play for 90 minutes. Our physical condition was enough for domestic competitions but it was very far from the demands of international matches. These were frustrating times but players’ thoughts were always "we must improve; we need to show that we can beat some of the better teams". After all, what matters is the final result!
Until the end of the 1990-1999 decade, Portugal was able to qualify for the playoff matches regarding the EURO 1997 (Norway). It was an important achievement for women’s football in Portugal. We didn’t qualify for the competition (Denmark went through) and had to wait until 2017 for that to happen, twenty years later. The seeds took 20 years to grow! But now there’s no way back! The only way is to move forward and to improve.
In this decade, the Portuguese WNT has played 69 international matches (win: 15; draw: 6; lost: 48). In this period Portugal had 2 head coaches, Mr. António Simões (1993- 1996) e Ms. Graça Simões (1996 - 2000). Both have done their job as best they could with few conditions given to them by the Portuguese FA. But even so we were growing slowly.
The legacy of head coach Graça Simões was taking Portugal to the playoff matches for the EURO 2001 (Germany). But then her work contract wasn't renewed and a new head coach was appointed and started with these two matches, against Italy (Mr. Nuno Cristóvão). Same as in 1996 we didn’t qualify for the competition but we won the home match under adverse weather conditions.
The next decade (2000-2009) should have shown the improvement of the national team but it didn’t. In July 2003 FIFA release the first WNT ranking. Portugal was placed in the 34th place. The work done by head coach Nuno Cristóvão was very good and it was under his advice that the first time under 19 WNT was created. It was a huge conquest for women's football in Portugal. The new generation of players would have the great opportunity to start their international experience much earlier. But, once again, when things were really starting to improve, head coach Nuno Cristóvão left the Portuguese FA, end of the 2003/2004 season. The worst period ever for the WNT was arriving.
PrintSreen FIFA website

The new head coach was Mr. José Augusto (2004-2007) who had been Mr. António Simões teammate in SL Benfica and also in the national team. In that period of time, Portugal dropped from 34th to 47th place! It was a very complicated period and the players’ disappointment was difficult to hide. Those 3 years by Mr. Augusto’s command made the same damages as the 10 years spent without competition. There was again the need to rebuild the national team. If you don’t believe me, just look again at the picture. It took another 10 years to rise to 36th place.
In the period from 2000 to 2009, the WNT played 94 international matches (win: 19; draw: 13; lost: 62), 25 more than in the previous decade.
From 2007 to 2011, Ms. Mónica Jorge was named the new head coach of WNT and she had the huge task to revert the damages done by the previous head coach. She stayed in the job until she was elected to the Portuguese FA board where she is currently the head of women’s football. In the transition period the national team the team was guided by other women’s national teams’ coaches until Mr. Francisco Neto was appointed as new head coach, in February 2014.
Like it or not, it was with Ms. Mónica Jorge in the board of Portuguese FA that the major results and improvements were achieved:
  • Qualification for the under 19 EURO, 2012 (Turkey);
  • Qualification for the under 17 EURO, 2013 (England);
  • Qualification for the EURO 2017 (The Netherlands);
  • 3º place at Algarve Cup 2018 (Portugal);
  • WNT: under 16 (2014) and under 15 (2017);
  • Development of the domestic competitions;
  • Increase in the number of players from every age;
  • Empowering regional associations to the relevance of women's football;
  • New domestic competition – Supertaça (SuperCup) Allianz:
  • New format for domestic youth championships.
I could continue naming what happened since Ms. Jorge is on the job but what I think it is more important to underline that it was because of the huge difficulties she had to face while she was head coach that she knew what she had to do to develop women’s football in Portugal. Of course she didn’t do it all by herself. All the board agreed with the needed changes. And the results are showing, not just with the top team but also with the youth teams.

MJX - data collect from the Portuguese FA website
However, are we really growing consistently and in a sustainable manner or is this just another good phase? No, the top Portuguese WNT is really growing! If you analyse the graphic you can easily realise that we are reducing the percentage of "lost" matches and increasing the "win" matches, especially from the decade 2000-2009 to the current one. Other important data is the increasing of played matches from one decade to the other. In my opinion, along with the improvement in trainning conditions for the WNT’s, this is what is really making a difference and is allowing the Portuguese WNT to grow consistently. From 2000-2009 (94 matches) to 2010-2019 (121) the Portuguese WNT already played more 27 matches than in the previous decade (and it will still increase).
Anyway, the Portuguese FA should get to the next step: empowering the Portuguese clubs so they can offer better conditions to the players. I know we have 2 very big clubs, Sporting CP and SC Braga where the players are professional but that’s not enough. These two teams won’t be able to have all the players so they should find others to continue playing in Portugal. But they will need better conditions to keep growing and improve. Think about the younger players that are starting now and have the opportunity to play for the youth national teams. If I was one of them I would demand better conditions to my club. I would want to keep improving my skills and competency. But for that to happen I can’t only practice 3 times a week and sometimes even have to share the pitch with other club teams! I would need other kind of guidance because even the small details make a difference in being a good or being a great player.
I think this is going to be the next challenge for the Portuguese FA, for the regional associations and for the clubs: how can we improve the quality and competitiveness of the major domestic competitions (Allianz League, Portuguese Cup and SuperCup) so that our WNTs can achieve better results, year after year?
Both things are related!!
I'm quite sure that we are on the right path. I believe that we won’t turn back and go down all the way, once again.

End of story!

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Está na hora, Portugal!


Foto: FPF
 
Depois do eufórico 3º lugar na Algarve Cup, a selecção A feminina tem hoje frente à Bélgica, num jogo de apuramento para o Mundial 2019, o seu verdadeiro teste.
Ao verem quatro exibições cheias de qualidade e muita personalidade, todos os seguidores do futebol feminino português ficaram com o desejo de "quero mais".
A expectativa de perceber se o que aconteceu na Algarve Cup tem continuidade é bastante grande.
E, diga-se, que essa expectativa é bastante pertinente, não só pelo crescimento sustentado que a selecção tem conhecido, mas porque a cada passo mais bem dado, a exigência de melhor é obrigatória.
Naturalmente, os projectos não se dissipam só porque os objectivos não se concretizam. E nada do que está pensado e projectado para o futebol feminino português ruirá, se o resultado de hoje não for o que mais nos agrade.
Agora, que o crescimento com vitórias é mais saboroso e a curto/médio prazo mais rentável, isso é uma realidade.
A imagem que a selecção deixou nos jogos da Algarve Cup, de um grupo trabalhador, pragmático, versátil, deixa antever que hoje isso tudo estará em campo, de novo.
Só nos resta esperar que a tarde passe rápido e às 18,30 ligarmos qualquer dispositivo que tenha a RTP 1 e...
... vibrarmos com PORTUGAL!
 

terça-feira, 27 de março de 2018

Quo vadis seleção nacional feminina?

Foto: FPF
Já ando há uns dias a pensar um texto direccionado para a evolução evidente da nossa seleção nacional feminina quando, nem de propósito, é divulgada a atualização do ranking FIFA, com a subida de dois lugares (de 38º para 36º).


Esta coisa de rankings nem sempre refletem o que se passa no terreno de jogo (quem não se lembra do Portugal - Itália, em que esta última não saiu cilindrada do Estoril por manifesta falta de eficácia das nossas jogadoras) e nem tão pouco o crescimento sustentado das diferentes seleções.


Como aqui chegámos? Para tal precisamos de recuar um pouco no tempo para encontrar uma resposta que tenha alguma credibilidade e possa, efetivamente, contribuir para a explicação do que estamos atualmente a assistir com a nossa seleção feminina mais representativa.


Jornal "A Bola" 09/03/2015
Se bem se recordam, em 2015, foi apresentado no Algarve o Programa Estratégico para o Desenvolvimento do Futebol Feminino (PEDFF), onde constavam as linhas mestras do que era preciso desenvolver, no imediato, para que fosse possível dar o passo seguinte desta modalidade que nos apaixona. A ideia era avançar com a entrada direta de clubes que competiam à data na Liga masculina através de convite a remeter pela FPF. A questão não foi de fácil aceitação por parte dos clubes que estavam no Campeonato Nacional da 1ª divisão, competição que viria a ser sucedida pela Liga Allianz. Adicionalmente a esta medida (a mais polémica, sem dúvida) outras estavam plasmadas no referido documento e já são uma realidade (por exemplo, Campeonato Nacional de Juniores e a criação da Supertaça Feminina).

O aumento do número de jogadoras também era um dos pontos chave do PEDFF e, ao fim de 3 anos, também essa realidade já é bem visível e traduzida em números (na última época observa-se um crescimento em 35,2% no número de praticantes, como se pode observar na imagem abaixo e informação solicitada à FPF).
PrintScreen do sítio da FPF (http://indicadores.fpf.pt/)

Em 2016/2017 arranca a 1ª edição da Liga Allianz com a entrada direta do Sporting CP, SC Braga, o GD Estoril Praia e o CF "Os Belenenses" (clubes que aceitaram o repto da FPF), juntamente com os clubes que transitaram do Campeonato Nacional da 1ª divisão e os que subiram da divisão inferior.

Com a entrada, especialmente, do Sporting CP e o SC Braga, assiste-se a um fenómeno que consistiu no regresso de um conjunto de jogadoras que evoluíam em campeonatos bem mais competitivos que a nossa Liga Allianz. Ainda serão precisos mais uns anos para que esta seja competitiva o suficiente para termos mais que duas equipas a lutar pelo troféu e o desnível entre equipas não seja tão acentuado, como se verifica atualmente.

Mas, retomando rapidamente a tentativa de explicar como chegámos ao patamar em que nos encontramos atualmente, além das medidas institucionais por parte da FPF, é preciso salientar alguns aspetos:

  • desde 2015, que a seleção nacional tem uma base mais ou menos fixa de 15/16 jogadoras que estão sempre presente em todas as convocatórias (salvo motivo de lesão) e que têm crescido internacionalmente em conjunto (Patrícia Morais, Carole Costa, Matilde Fidalgo, Mónica Mendes, Sílvia Rebelo, Carolina Mendes, Cláudia Neto, Dolores Silva, Fátima Pinto, Vanessa Marques, Ana Borges, Diana Silva, Tatiana Pinto, Jéssica Silva, Laura Luís e Raquel Infante) e, ao mesmo tempo, vai integrando outras de forma a que o leque de escolha seja cada vez mais alargado. Além disso, algumas destas jogadoras já tinham participado no Europeu sub 19;
  • de todas as acima referidas, poucas são as que não jogaram nos campeonatos mais competitivos e, como tal, desenvolveram capacidades e competências adicionais para lidar com competições mais exigentes;
  • à medida que estas jogadoras foram crescendo e ganhando experiência internacional, a seleção nacional começou a ter mais argumentos para crescer;
  • o regresso de muitas jogadoras a Portugal para o Sporting CP e SC Braga fez com que a Liga Allianz tivesse um incremento na qualidade das praticantes. Obrigou, especialmente este dois clubes, a olhar para o futebol feminino de forma séria e profissional, dotando-as com as melhores condições existentes para que o seu desenvolvimento e crescimento não fosse interrompido. Poder jogar futebol (ou qualquer outra modalidade) profissionalmente é uma mais-valia enorme. Tomando, por exemplo, as convocatórias para a Algarve Cup dos anos 2015, 2016, 2017 e 2018 constatamos a diminuição do número de atletas que jogam no estrangeiro (11, 13, 10 e 6, respetivamente). As convocatórias nos dias que correm são dominadas por estes 2 clubes, que revela o trabalho de elevada qualidade que é desenvolvido por ambos. Manter as jogadoras motivadas e focadas numa competição com pouca competitividade não será tarefa fácil. Mas, a realidade é que na prestação individual de cada jogadora ao serviço da seleção nacional não se nota diferença (física e técnico-tática) entre as jogadoras convocadas oriundas de campeonatos mais competitivos;
  • entre 2015 e 2018 (até ao dia de publicação deste texto, além dos jogos oficiais e da Algarve Cup), Portugal realizou mais 16 jogos particulares tendo em vista as qualificações que decorriam nesses anos (2015: 6; 2016: 2; 2017: 6 e 2018: 2). Toda esta preparação e competição internacional contribuiu grandemente para o crescimento da seleção nacional, criando cada vez mais rotinas e melhorando estratégias competitivas, tornanando a equipa cada vez mais competente e com recursos variados. O compromisso da direção da FPF na promoção do futebol feminino começa a ter o retorno visível para bem de todos os atores envolvidos;
  • a participação na fase final do EURO2017 foi o culminar do crescimento que se vinha, ainda que timidamente, a assistir mas que já tinha deixado boa impressão na fulgurante fase final da qualificação e, posteriormente, nos jogos de playoff contra a Roménia, antevendo-se que o melhor estaria guardado para o futuro próximo;
  • quem estiver atento terá reparado também que a seleção nacional, desde 2015, foi sofrendo várias mudanças nos 11 titulares e na adaptação de jogadoras a lugares que não são os seus de origem. Fica sempre a questão de como seria se não fossem efetuadas estas adaptações. Mas, a realidade não deixa mentir, goste-se ou não (incluindo as próprias jogadoras), a prestação da seleção nacional começou a crescer quando estas mudanças foram sendo testadas e efetuadas gradualmente... pessoalmente, considero que estas alterações começaram a ver-se no jogo de qualificação Portugal 1 - 4 Espanha, disputado na Covilhã a 8 de abril de 2016. Se tiverem tempo e alguma paciência façam como eu e vão notar o que quero dizer.
Daí que, regressando ao titulo deste texto "Quo Vadis seleção nacional feminina", o caminho só pode ser em crescendo. A estratégia está montada e em afinação permanente. Cada vez mais cedo as mulheres e raparigas podem começar a praticar a modalidade de eleição que escolheram. Os quadros competitivos iniciam-se cada vez mais cedo. A possibilidade de jogarem entre e com rapazes só lhes traz vantagens, obrigando-as a desenvolver capacidades e competências para competirem de igual para igual como eles nas idades mais jovens.

As seleções nacionais jovens começam a proporcionar contacto internacional cada vez mais cedo, permitindo o crescimento competitivo das jogadoras mais precocemente (Portugal encontra-se na Holanda a disputar o Torneio de Elite Sub 17 e irá em abril discutir o mesmo torneio em Sub 19). A aquisição de competências técnico-táticas a nível do que melhor se pratica em Portugal começa em idades mais jovens (14-15 anos). Toda esta experiência acumulada é uma mais valia para quando alcançarem a seleção sénior. As diferenças entre as grandes seleções começam a esbater-se em ritmo acelerado.


A seu tempo, todas estas jogadoras vão querer o seu espaço ao mais alto nível... é aqui que os clubes nacionais vão ter que apostar! Na possibilidade de manter todas as jogadoras de topo a competir em Portugal. Para a edição 2019/2020 espera-se que já estejam 4 clubes da Liga Nos a competir de igual para igual na Liga Allianz. Desejo sinceramente que as restantes equipas consigam melhorar as suas condições e possam também manter as suas jogadoras.


A competição europeia de clubes vai ter que ter um representante que consiga passar a fase do mini torneio. Torna-se imperativo que também a este nível se consiga jogar contra as melhores das melhores. Acredito que qualquer dos responsáveis das equipas com mais possibilidade de lá chegarem têm esta ideia em pensamento. Não só no campo desportivo mas também pelo encaixe financeiro que daí advém.

O futuro avizinha-se risonho e capaz de nos proporcionar também muitas alegrias, a exemplo do que temos vivido e que nos estamos a habituar: a conquistar troféus mundiais e europeus. Podemos ter tido um período mais longo do que esperado mas antes tarde que nunca.

É um enorme orgulho ver o crescimento e consolidação da minha modalidade de eleição. O mérito é da direção da FPF, das equipas técnicas (e restante comitiva, nada se consegue sem o apoio incondicional de todos), mas permitam-me, é especialmente, das jogadoras que atualmente integram a seleção nacional, de todas aquelas que um dia esperam lá chegar e das que estão agora a começar a dar os primeiros pontapés na bola. O futuro pertence-lhes!

Foto: FPF

Eu acredito que vamos espalhar magia por todas as competições e estádios fora! Não sei se iremos estar no Mundial 2019, em França. Qualidade para lá estar não nos falta. Teremos que correr atrás do prejuízo de duas derrotas caseiras. Mas enquanto for possível matematicamente a esperança mantém-se inalterável.

Portugal sempre!

segunda-feira, 19 de março de 2018

O patinho feio entre os cisnes


Tem hoje lugar a Gala da FPF, Quinas de Ouro. 
Neste evento de organização hollywoodesca, onde tudo é feito com pormenor e glamour, atribui-se prémios de melhores do 2017 a todas as vertentes sob a égide da FPF.
No futebol feminino na categoria de melhores jogadoras estão nomeadas Ana Borges (Sporting Clube de Portugal - Internacional A, campeã nacional e vencedora da Taça de Portugal e Supertaça em 2017), Cláudia Neto (VFL Wolfsburg - Internacional A e campeã nacional da Suécia em 2017) e... Joana Vieira (Clube Futebol Benfica - melhor marcadora da Liga Allianz em 2017).
Muitos se questionarão, num ano em que tantas jogadoras se destacaram entre as competições nacionais e de selecções, o que faz uma jogadora que nem sequer é internacional no meio de dois monstros como a Ana Borges e a Cláudia Neto.
A questão será pertinente para os mais desatentos do futebol feminino. Ou aqueles que só começaram recentemente a acompanhar. Ou ainda aqueles que só conhecem as jogadoras internacionais.
Sem desprimor para um leque de grandes jogadoras que ficaram de fora destas escolhas, a nomeação da Joana Vieira só parecerá estranha porque no seu currículo não existe a palavra internacional.
Ser melhor marcadora da Liga Allianz, ou de qualquer competição é um título a todos os níveis muito cobiçado. Sê-lo num clube que não o Sporting ou o Braga, não é tarefa fácil. Alcançá-lo nos minutos finais do último jogo da Liga é a cereja no topo do bolo.
Estamos a falar de uma jogadora que chega ao futebol em 2013/2014, já com 23 anos, trazendo consigo grandes credenciais, em termos de títulos e internacionalizações, no... rugby.
O que me parece de realçar, nesta nomeação da Joana, é que vale a pena sonhar. Que no desporto, como na vida, a perseguição de objectivos e a luta permanente para alcançá-los, deve ser o que nos norteia.
Não sei, objectivamente, quais os critérios para as nomeações. Mas esta dá à estampa aquela jogadora que se faz por si própria, que mesmo tendo poucas hipóteses vai à luta, que leva os jogos até aos segundos finais, que respeita e é comprometida com o futebol feminino, predicados essenciais para que a modalidade continue a crescer.
E a provar que o motivo da nomeação não foi fortuito, com 18 jornadas feitas, a Joana está no top 3 das marcadoras com 17 golos (menos 4 que Diana Silva do Sporting e menos 3 de Laura Luís do Braga).
Em resumo, parece-me relevante que existam jogadoras nestes eventos que não são mainstream, de momento que o justifiquem, obviamente, porque o futebol feminino não sobrevive só com jogadoras internacionais. E todas as outras que não o são, porque o lote é naturalmente reduzido, não podem sentir que têm um papel menos importante nesta caminhada.
O futebol feminino precisa de todas as jogadoras, independentemente das suas qualidades, desde que gostem de trabalhar e procurem a superação em cada momento.

Parabéns, à Ana Borges e Cláudia Neto pelo seu gigante talento e por nos fazerem delirar sempre que desencantam uma jogada que ninguém espera, e parabéns à Joana Vieira por esse enorme talento que é a entrega ao jogo sem limites.
Parabéns à FPF pela dignidade dos prémios.


quinta-feira, 15 de março de 2018

As bodas de prata da Algarve Cup

Inicia-se no próximo dia 28 de fevereiro a 25ª edição da Algarve Cup. Como já tínhamos dito anteriormente, março é o mês do futebol feminino e é de inteira justiça dizer que este torneio é o terceiro mais relevante depois do Mundial e dos Jogos Olímpicos. Nem a "fuga" dos EUA, da Alemanha e da França lhe retira a reconhecida  importância na preparação das 12 seleções que competem a sul do país.

Posso fazer-vos um retrato do que foram os últimos 25 anos da minha vida neste periodo que decorre a Algarve Cup - foi sempre passado a sul do país (só falhei a edição de 2016). 

Qualquer semelhança da primeira edição para a que está prestes a começar é pura coincidênca. A todos níveis o torneio cresceu e amadureceu. No longínquo ano de 1994 deu-se o pontapé de saída da 1ª Algarve Cup (inicialmente designado de Mundialito de futebol feminino) e para as atletas da altura foi o evento onde mais puderam crescer desportivamente e desenvolver as suas capacidades e competências individuais. Nesse tempo não havia redes sociais, destaque na comunicação social era dado às equipas que vinham de fora (o que se entendia) e era impensável ter a transmissão em direto dos jogos. Eram tempos diferentes então mas que tiveram a sua importância no desbravar caminho para o que se começa a concretizar nos dias de hoje. Por vezes penso que as jogadoras não têm noção da sorte de dispor das condições atuais e muito menos dos obstáculos que foram precisos ultrapassar para chegarem aos dias de hoje. 

Tenho, como se depreende, muitas histórias que guardo com muito carinho e que me enchem de orgulho. Guardo muitas e boas recordações das minhas 10 presenças enquanto atleta. Foi o período em que defrontei das melhores jogadoras de todos os tempos, que percebi que "não jogava nada" quando em confronto direto. Decidi que tinha  que fazer mais para poder diminuir a distância entre mim e elas (e consegui, digo-o sem qualquer falsa modéstia). Eu não gosto de perder e nessa altura era o resultado mais usual (mas ao qual nunca nos acomodamos ou resignarmos mas as outras seleções estavam num patamar demasiado elevado para uma seleção que teve um interregno de 10 anos conseguisse dar luta). Todos os jogos eram uma aprendizagem a reter. 

Fiz (vou fazer nesta edição das bodas de prata), a minha 14ª participação enquanto TLO  (Team  Liasion Officer) e a aprendizagem não para. Acompanhei seleções de quase todos os continentes e tive o raro privilégio de "trabalhar" com a seleção do Japão, em 2012, quando regressa à Algarve Cup como campeã mundial em título. Posso dizer-vos que esta foi a edição mais recheada de surpresas. A chegada do Japão ao aeroporto de Lisboa foi transmitida em direto para o Japão. Nesse ano, o Japão tinha mais de 100 jornalistas acreditados e que não arredavam pé de treinos/jogos sem antes falar com jogadoras e treinador.

Os jogos do Japão sempre foram transmitidos, em direto, independentemente da diferença horária (mais 9h no Japão) que obrigou a organização do torneio a marcar o início dos jogos para horas pouco usuais (12h10, por exemplo) e assim entrar no horário nobre de qualquer estação televisiva! Foi toda uma nova experiência.

A 25ª Algarve Cup também ficará guardada com muito carinho na minha cabeça. A convocatória para integrar o jogo das  Estrelas permitiu-me, passado quase 15 anos que pendurei as chuteiras, voltar a vestir a camisola de Portugal ainda que de forma simbólica. Foram umas horas repletas de alegria e boa disposição para comemorar o quarto de século da Algarve Cup.

Se bem que as únicas estrelas maiores são o próprio torneio e a aposta da FPF em nunca deixar cair o mesmo além de permitir o seu crescimento ano após ano.

Muita sorte e sucesso para todas as seleções mas em particular para a seleção portuguesa.

Que comecem os jogos!