quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Raparigas versus rapazes


 
 
O que acontece quando, a um lote de raparigas que querem jogar futebol e não têm competição própria, se juntam treinadores e dirigentes ousados e interessados em fazer com que essas jogadoras cresçam? Aguardam que chegue a idade própria para competirem entre pares, sujeitando-se a que, entretanto, algumas delas desistam do futebol e se virem para outro desporto?
Já foi assim, infelizmente.
Agora, aproveitando a onda de vitalidade que o futebol feminino tem, os clubes inscrevem essas equipas nas competições onde habitualmente só há equipas de rapazes.
Do que nos foi dado apurar, são cerca de uma dezena e evoluem um pouco por todo o país, distribuídas por sete associações.
Competindo no escalão sub/13, consoante as regras que as associações estabelecem para ajudar a encaixar na competição, as raparigas têm entre 13 e 15 anos. Fantástica esta abertura e elasticidade por parte dos órgãos associativos, demonstrando uma grande vontade em promover e fazer crescer o futebol feminino. Poderia dizer-se, somente, que é a sua obrigação, mas reconhecer o que está bem feito, para além de ser uma questão de justiça, é uma forma de cumprimentar quem se esforça por fazer com que as coisas funcionem. E, na verdade, todos nós gostamos de ser reconhecidos – é saudável esse sentimento.
Mea culpa, mas o primeiro contacto que tive com jogadoras deste escalão, e tipo de competição, foi no Torneio de Albergaria em Junho passado. E logo tive a sensação de que tinha andado a perder uma coisa fabulosa. Para quem, como eu, começou a jogar com 17 anos, apesar de jogar na rua com amigos desde a escola primária, ver a forma como estas miúdas evoluem em conjunto é fascinante.
Não se trata só da sua qualidade individual, que sim muitas têm-na em abundância, mas da forma como já se comportam tacticamente. E a isso não é alheia a qualidade de quem as orienta: tanto ao nível dos conteúdos de jogo, mas também, e talvez mais importante ainda, a forma como se relacionam com essas raparigas em formação. Como as chamam a atenção de forma quase privada, em contraponto com gritos desmedidos para dentro de campo, como explicam o que é para se fazer por ideias simples e de fácil entendimento, em contraponto com os clichés do futebol que só servem para os treinadores se exibirem, como exercem a sua autoridade com firmeza, mas sem hostilidade.
Todas estas qualidades são extremamente importantes num treinador/a de equipas de raparigas/mulheres, mas quando elas estão em idade de formação tornam-se fundamentais. É também chegada a hora dos dirigentes terem estas coisas em atenção quando contratam treinadores ou treinadoras para as suas equipas femininas. Vale a pena o esforço, porque os resultados serão visíveis no crescimento das jogadoras e da equipa.
Voltando ao assunto inicial, vale muito a pena seguir o trajecto de algumas destas miúdas que competem neste escalão. A dureza de jogar contra equipas masculinas dá-lhes uma maior capacidade de abordagem aos lances, e a todo o jogo em geral, e acredito que este será um caminho a ser seguido por mais clubes.
Até porque, a médio prazo, se estas jogadoras vierem a celebrar contratos profissionais, darão o devido retorno ao investimento que os clubes fizeram nelas.
 
[texto originalmente publicado no site do SJPF]

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Muda-se o "naming"... mantém-se tudo na mesma?

A propósito da celebração do contrato com novo patrocinador, Banco BPI e da redefinição do naming da Liga Feminina para Liga BPI levou-me a fazer algumas considerações se pensar que a UD Ferreirense teve que desistir da competição porque o clube fechou portas.

Aliás, este é o drama de todos os clubes "pequenos" que dependem da disponibilidade de um conjunto de pessoas, que por amor e dedicação ao clube não os deixam morrer. Mas, a determinada altura, independentemente dos motivos, essas mesmas pessoas desistem de lutar contra as adversidades, obstáculos e dificuldades e, por falta de alternativa, o clube encerra a sua atividade. Não serão tão poucos quanto isso mas quando se trata de um clube que tinha uma equipa a competir ao mais alto nível no futebol feminino nacional, as noticias correm depressa. Infelizmente, digo eu para as gentes de Ferreiros mas, especialmente, para as jogadoras e demais elementos que integravam esta equipa.

Retomando ao titulo do texto, a questão que levanto é se não se pode ponderar, nesta nova parceria, a possibilidade de serem facultados mais apoios aos clubes que disputam as competições femininas. Bem sei que a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) não tem (diretamente) essa responsabilidade mas, a exemplo do que ocorre na Taça de Portugal masculina, não será viável a atribuição de um valor de participação, desde a primeira eliminatória, às equipas participantes? Não tenho qualquer intenção de sugerir esse valor (desconheço os montantes negociados com o BPI e a percentagem que será alocada ao futebol feminino) mas creio que seria uma motivação adicional para todos os clubes. Numa época que tanto se fala e discute a igualdade de género será da mais elementar justiça que a FPF possa dar um passo em frente.

Não tenhamos ilusões. Excluindo os chamados clubes grandes, os restantes debatem-se com enormes dificuldades para poderem desenvolver a sua atividade. As fontes de receita são limitadas e os patrocínios escasseiam. Não obstante, assiste-se (felizmente) a que nenhuma adversidade e conhecimento desta realidade tem afastado os clubes de criarem equipas de futebol feminino, especialmente nos escalões de formação. O que não deixa de ser curioso pois daqui poderá surgir uma fonte de receita adicional devido ao valor que o clube poderá ser ressarcido (em caso de transferência) pelos anos de formação da atleta.

No limite, todas as melhorias nas condições dos clubes, irão beneficiar diretamente as seleções nacionais femininas pelo que a FPF irá obter, a um nível diferente, o retorno do investimento efetuado.

Mas esta é só a minha opinião pessoal. 
Todas são válidas e podem ser partilhadas.
Quem aceita o desafio?

(Texto de Maria João Xavier publicado originalmente no sítio do Sindicato dos Jogadores)

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A lógica das escolhas femininas

O que leva uma jogadora trocar a Liga BPI pelo Campeonato Nacional da II Divisão (designação para 2018/2019 do Campeonato de Promoção), uma jogadora sub/18 preferir estar num clube de maior dimensão não jogando, do que estar num mais pequeno competindo todos os fins de semana (e assim trabalhar a sua evolução) ou ainda trocar a profissionalização num campeonato competitivo no estrangeiro, para ser profissional na equipa mais forte em Portugal, mas cuja competição não traz dificuldade digna de relevância e em que a única incógnita é saber a quantas jornadas do fim serão campeãs?
 
Nem sempre são lógicas e ambiciosas as escolhas das jogadoras portuguesas.
Num contexto ainda maioritariamente amador, razões como "gostarem do treinador, terem amigas na equipa" têm um peso maior na escolha da equipa do que objectivos competitivos. Ainda se opta muito pelo confortável e poucas são as que fazem uma inflexão e rumam para fora da zona de conforto.
Com a entrada de clubes como Sporting, Braga e Benfica surge uma nova opção. Poder trabalhar profissionalmente deixa de ser uma miragem em Portugal. Mas ainda assim, há quem faça escolhas mais com o coração do que com a razão. Doutra forma, como aceitar uma transferência quando se está num lote de terceiras escolhas para jogar?
Podemos argumentar que alguém tem de fazer essas opções e, de facto, assim é.  Mas quando ainda vivemos uma realidade em que as jogadoras de topo não são suficientes para preencher sequer metade das equipas da Liga Allianz, o desejável para a dinamização da competitividade seria que todas optassem por escolher a dificuldade, porque traz evolução, em vez do conforto.
Mas o desejável nem sempre é o que acontece e as escolhas das mulheres têm sempre uma forte componente emotiva.
Longe de ser uma crítica, até porque eu sou uma defensora das escolhas baseadas na felicidade a tout court, é mais uma constatação.
E que deve sempre ser tida em conta, quando se fazem grandes planos e projectos para o desenvolvimento do futebol feminino. Há uma variável bastante significativa que representa o espírito feminino, o seu estado de espírito mais propriamente, que não se compadece da previsibilidade necessária quando se projecta algo.
Isto não significa que as mulheres jogadoras não sejam confiáveis. São-no com uma determinação e entrega muito acima da média. Mas também se amofinam, ou se entusiasmam com maior frequência.
Com projectos profissionais as coisas tenderão a estabilizar? Talvez sim. Mas o futebol feminino em Portugal está longe de ter um panorama significativo de jogadoras profissionais. E, portanto, a maioria continuará a tornar a silly season do futebol, o chamado defeso, num vai e vem que entusiasma quem de fora observa.
E dá alguma vivacidade aos projectos.
 

terça-feira, 19 de junho de 2018

2017/2018 - A época em revista


A época que agora terminou confirmou todo o potencial da equipa do Sporting CP que revalidou o título nacional da Liga Allianz, reconquistou a Taça de Portugal e adicionou a estes troféus a conquista da Supertaça, tendo sempre como adversário direto o SC Braga.

A época começou bem cedo para o Sporting CP com a participação no mini torneio de qualificação para a UEFA Women's Champions League (UWCL), realizado em Budapeste, Hungria. Nesta primeira participação a equipa verde e branca não conseguiu passar à fase seguinte, após ter perdido o jogo inaugural.

Internamente, a época começou a 3 de setembro com a realização da Supertaça tendo como equipas os suspeitos de sempre, Sporting CP e SC Braga. O jogo, analisado na altura, valeu pela emoção e incerteza do resultado, especialmente quando o SCP empata já em período de compensação e leva a decisão para prolongamento. Nestes 30 minutos, o SCP revelou-se melhor a todos os níveis o que não é de estranhar dado que nesta altura já tinha realizado jogos altamente competitivos como os que são os do MT da UWCL. Este foi talvez em toda a época o jogo em que o SC Braga esteve mais perto de derrotar o Sporting CP e conquistar o seu primeiro troféu, desde que regressou à modalidade.

A Liga Allianz muito cedo ficou decidida contrariamente ao que os treinadores sempre deram a entender (o que se percebe, há que motivar as jogadoras e manter os adeptos em redor das equipas). Ao triunfar em Braga, na 3ª jornada (30 de setembro 2017), a equipa leonina deu um passo de gigante rumo ao bi campeonato, como viria a acontecer. O empate verificado em Vila Verde pelo SC Braga na 6ª jornada aumentou a diferença pontual para 5 pontos, sendo que a 5 de novembro a Liga Allianz estava entregue. Para poder aspirar a mudar este cenário o SC Braga teria que ter feito muito mais no jogo em Alvalade, mas o jogo foi muito pouco emotivo.

Uma palavra de reconhecimento a todas as outras equipas que participaram na Liga Allianz, que lutam com "armas" desiguais quando comparado com estas duas grandes equipas. Nem o Estoril Praia, que se reforçou e bem para os lados de Benfica conseguiu fazer mossa pese embora o empate alcançado quando recebeu o Sporting CP. A diferença de argumentos é abissal e assim irá manter-se (ou até mesmo aumentar).

Admito que este texto peca por não ter uma abordagem ao Campeonato de Promoção. Não porque seja uma competição menor mas por manifesta falta de disponibilidade para acompanhar estes jogos. Sei, todavia, que há muitas jogadoras com enormes potencialidades e que aguardam a sua oportunidade para dar o salto para uma equipa de nível superior.  Deixo o desafio a quem segue esta competição para relatar as incidências da mesma. Até porque a conquista do título por parte da Ovarense está envolta em grande polémica e seria importante que tudo ficasse devidamente esclarecido em nome da verdade desportiva.

A Final da Taça de Portugal, disputada no final de maio foi outro espetáculo fantástico. Mais uma vez, a vitória sorriu ao Sporting CP, já no prolongamento, depois de um jogo em que o SC Braga viu um golo ser anulado (e bem) pelo VAR e dispôs de várias oportunidades flagrantes para se adiantar no marcador. O disparo a mais de 30 metros da Diana Silva só parou no fundo das redes da Rute Costa.

Umas notas finais para a seleção feminina. A eliminação da fase final do Campeonato do Mundo de 2019, em França ficou consumada no passado dia 8 de junho, com a derrota em Florença, contra a Itália. Portugal iniciou esta caminhada com a moral em alta depois da participação história no EURO 2017, na Holanda. O grupo não se antevia fácil mas permitia efetivamente sonhar com a qualificação. A derrota no jogo inaugural, contra a Bélgica, foi um enorme balde de água fria mas nada estava perdido. Portugal retomou a senda vitoriosa impondo uma goleada à Moldávia e ganhava alento para o jogo contra a Itália, realizado no Estoril. Se há jogo que em que a sorte não protegeu Portugal e nada quis connosco foi este. O pragmatismo italiano voltou a fazer das suas.

Pelo meio, Portugal realizou um brilhante percurso na Algarve Cup, garantindo um 3º lugar nunca antes alcançado e mostrou toda a sua evolução a países que normalmente não se cruzam no nosso caminho. As opiniões foram unânimes mas esta foi a que eu melhor retive.

Agora é tempo de recuperar e recarregar baterias. As exigências da próxima época estão aí à porta. O Sporting CP é o primeiro a entrar em ação com a participação, novamente, no mini torneio de qualificação para a UWCL, logo no inicio de agosto (a época será longa).

Para a próxima época teremos outros motivos de interesse e que vão aumentar seguramente a visibilidade do futebol feminino nacional. Refiro-me, especialmente, ao arrancar da equipa do SL Benfica e das suas legitimas aspirações a chegar à final da Taça de Portugal.

Mas sobre isto, falaremos noutra oportunidade.

Agora é tempo de apoiar a nossa seleção maior no Mundial da Rússia.

Boas férias.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Conseguirá o futebol feminino mover multidões?



Nas últimas semanas decorreram vários jogos de relevo pelo mundo fora e que foram noticia não só pela importância das respetivas competições mas sim pelo número de espectadores que se deslocaram ao estádio para assistir ao vivo e a cores aos vários jogos.

Quem é que não se lembra da final do Campeonato do Mundo de 1999, entre os Estados Unidos da América (EUA) e a China, realizado nos EUA e que teve uma assistência de 90 185 espetadores?

Mas se a nível de selecções já havia registos bastante animadores sobre o número de espectadores (basta recordar os jogos da Holanda no seu país para o EURO 2017 e mais recentemente num dos jogos de qualificação para o Mundial 2019), a nível de clubes não é frequente ter-se informação tão detalhada. De forma que quando é divulgado que o jogo que iria atribuir o título de campeão da Liga MX Femenil (México) teve uma assistência de 51 211 espetadores no estádio, a surpresa é enorme (pelo menos para mim foi). Mas não se ficou por aqui dado que a Final da Taça de Inglaterra entre o Chelsea e o Manchester City levou ao Estádio de Wembley 45 423 adeptos. É obra, há que reconhecer.

Internamente, não andamos longe do que se vai vendo pela Europa fora. O aparecimento de equipas como o Sporting CP e o SC Braga veio dar à modalidade um impulso (e destaque) nunca antes observado bem como fez regressar a Portugal um conjunto de jogadoras que evoluíam em equipas estrangeiras e, com elas uma melhoria significativa na qualidade dos jogos. Aliás, os jogos do Sporting CP realizados em Alvalade representam as maiores assistências registadas na Liga Allianz e ambas as finais da Taça de Portugal, entre o Sporting CP e o SC Braga, as maiores assistências no nosso futebol feminino (mais de 12 000 e 11 714 espetadores em 2016/2017 e 2017/2018, respetivamente). Pode parecer uma tremenda injustiça para as equipas que andam há décadas a lutar pelo futebol feminino nacional, mas a mercado funciona assim mesmo. Espero que consigam crescer também com este destaque que agora se observa. Seria de elementar justiça.

A juntar a esta assistência no estádio, não podemos negligenciar os números fantásticos da assistência através da RTP 1, com mais de meio milhão de espetadores. Para a próxima época teremos mais uma equipa a contribuir para esta dinâmica, o SL Benfica, que mesmo entrando pelo Campeonato de Promoção vai apostar bem forte para chegar à final da Taça de Portugal no ano de estreia.

Mas, como surgem estas assistências pouco usuais no futebol feminino? Bom, isso pode ser explicado de várias perspectivas mas a partir do momento em que a FIFA reconhece que o futebol feminino é o futuro cria-se uma nova marca que, para ter sucesso, tem que ser apetecível comercialmente. Tomando por exemplo Ligas tão competitivas como a alemã, inglesa e francesa, regra geral, são equipas destas ligas que discutem o apuramento para a Final da UEFA Women's Champions League (UWCL) até às últimas eliminatórias (este ano estiveram nas meias-finais 2 equipas inglesas, Chelsea e Mancherter City). A final deste ano, em Kiev, disputada entre o Lyon e o Wolsburgo teve uma assistência acima dos 11 000 espetadores. 

Quem se recorda da Final disputada, em 2014, em Lisboa? Foram 11 217 os espetadores que se deslocaram ao Estádio do Restelo para assistir a três espectáculos num só... A vista fenomenal que o estádio proporciona sobre Lisboa, a final entre o Wolsburgo e o Tyresö FF e no final foram brindados com um concerto do Anselmo Ralph.

Mais recentemente, o presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, afirmou que a final da UEFA Women's Champions League irá tornar-se num dos pontos altos do calendário por direito próprio. Tanto é que a edição de 2017/2018 foi a última em que ambas as finais desta competição se disputaram na mesma cidade.

Se num dado momento a fórmula foi importante para dar impulso à final feminina, atraindo mais comunicação social e espetadores (uma vez que se disputavam com um dia de intervalo, feminina à quinta-feira e a masculina ao sábado), atualmente torna-se cada vez mais complicado conseguir logisticamente acomodar os milhares de adeptos que se deslocam massivamente para as cidades onde se disputam as finais. Mas esta separação permite, especialmente, promover cada vez mais a final feminina e negociar direitos (televisivos, por exemplo) individualmente sem estar incluída no pacote negociado para a final masculina.

É, sem dúvida, um avanço tremendo e uma mudança na forma de pensar (e mesmo negociar). A cidade de Budapeste será o palco para a final feminina de 2018/2019 enquanto a masculina será realizada em Madrid.

Não só em Portugal se assiste à entrada dos chamados clubes grandes no futebol feminino. Na vizinha Espanha apenas o Real Madrid continua resistente mas os seus maiores rivais (Barcelona e Atlético de Madrid) têm equipas que dão cartas pela Europa fora. Também de Inglaterra chegam boas noticias, com a criação de equipa feminina no Manchester United de forma a dar continuidade ao projeto de formação que tão boas jogadoras têm formado para depois serem contratadas por outras equipas, que agora serão adversárias. Mais recentemente, boas novas de Itália com o Milan a comunicar a intenção de criar uma equipa feminina (através da aquisição dos direitos desportivos do Brescia) e, com toda a certeza, discutir taco a taco as várias competições com a Juventus.

Sejamos honestos, são os clubes grandes que movem multidões, que chamam espetadores aos estádios e "exigem" mais atenção por parte das Instituições que regem o futebol feminino. A FIFA e a UEFA viram e perceberam rapidamente que há um novo filão a explorar (e bem) mas isso só ocorre porque o que se traduz dentro do terreno de jogo são espetáculos de enorme qualidade técnico-táctica, através de jogadoras com capacidades desportivas elevadas, capazes de fazer maravilhas com a bola e assim captar e cativar os adeptos de futebol. Se assim não fosse, o futebol feminino não se tornaria numa marca apetecível.

Sim, o futebol feminino vai ter destaque por si só e vai mover multidões!

Porque fez por merecer esse destaque!

Porque a qualidade dos jogos e as suas jogadoras assim o exigem!

quarta-feira, 6 de junho de 2018

InStat - conclusões


"A plataforma InStat foi um meio que a FPF encontrou para ajudar os treinadores das equipas da Liga Allianz a incrementarem a qualidade do seu trabalho. Algumas funcionalidades são: a disponibilização da gravação do jogo completo, a sectarização dos momentos do jogo, a análise individual das jogadoras, da comparação do desempenho entre as jogadoras de ambas equipas presentes no jogo e a possibilidade de se fazer download desses dados para um disco rígido". 

Este trabalho foi realizado pela página passes em profundidade para o portal futebol feminino Portugal, com a colaboração da sports and girls e termina agora com a reflexão sobre o que nos propusemos fazer e divulgar a quem nos segue. A primeira abordagem a este tema foi realizada neste texto. Foram elaboradas 6 questões diretamente relacionadas com a potencialidade da aplicação.

Em primeiro lugar, agradecer a todos os treinadores que nos facilitaram o trabalho e responderam ao repto lançado, que nos permitiu calendarizar a divulgação antecipadamente e ter duas opiniões por semana, uma à terça-feira e outra à sexta-feira, como devem ter reparado. A divulgação das respostas no portal futebol feminino tentou seguir a ordem da classificação em que terminaram as equipas a sua participação na Liga Allianz de 2017/2018.

Este trabalho teve o privilégio de obter a resposta de 11 dos 12 treinadores da Liga Allianz, que muito nos alegra e motiva para continuarmos diariamente a trabalhar para a promoção e divulgação do futebol feminino nacional.

Em jeito de resumo, podemos afirmar que a unanimidade nas respostas relativas à pertinência da disponibilização desta aplicação, por parte da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), aos treinadores da competição citada. O que, naturalmente, não é de estranhar tal a qualidade e multiplicidade de dados estatísticos que disponibiliza aos treinadores. Desde a possibilidade de analisar à lupa o desempenho da equipa na globalidade e das jogadoras individualmente terminando naquele que é o grande trunfo desta aplicação: a disponibilização das imagens de todos os jogos permitindo conhecer e analisar a própria equipa e as equipas adversárias. Não que tenha provocado grandes alterações nas programações semanais dos treinos mas permitiu antecipar algum tipo de situações de jogo e aperfeiçoa-las em situação de treino.


Por outro lado, este tipo de ferramenta não estaria ao alcance dos clubes da Liga Allianz, com excepção do Sporting CP e o SC Braga, que dispõem de outras condições de trabalho e as suas equipas técnicas têm outros meios para analisar os jogos. Ou seja, permitiu a que todos os treinadores da Liga Allianz estivessem em pé de igualdade na análise de jogos. Obviamente que depois faltam outras condições, nomeadamente o tempo de treino e de reunião com a equipa para que sejam passadas para a prática as possíveis melhorias. E nisto, não há milagres.

Algumas situações poderão ser revistas e melhoradas para a próxima época por parte da FPF mas há algumas condicionantes para a qualidade das imagens captadas, como por exemplo, as poucas condições estruturais de alguns campos que impede que seja possível efetuar a gravação dos jogos. Mas contra isto nada a fazer, são as condições que os clubes e as equipas dispõem.

É importante sublinhar e enaltecer a iniciativa da FPF e o que esta contribuiu para os treinadores e suas equipas. Não é o suficiente, é certo. Não faz frente a muitas dificuldades e obstáculos que as equipas enfrentam dia após dia.

Mas por algum lado se tem que começar! Que seja pela melhoria da qualidade e promoção da competitividade das equipas.

Boas férias!

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Taça de Portugal - a prova mais dolorosa de se perder



A Taça de Portugal é, muito provavelmente, a prova que toda a gente quer ganhar.

Não só porque é mais fácil de sonhar com a final, mesmo estando-se numa equipa mais modesta, mas porque acontece num espaço que é mítico. É mítico por todas as gerações que já subiram aquela escadaria e foram consagradas na tribuna de honra, mas também pela sua própria construção, que faz com que a nossa cultura visual nos remeta para o Olimpo.
 
Em boa hora a FPF trouxe a organização da final no feminino para o Estádio Nacional. Subir aquelas escadas é uma sensação única, seja como vencido ou como vencedor. Em ambas as circunstâncias vislumbramos caras conhecidas que nos sorriem, mãos amigas que nos tocam, palavras que nos incentivam e consolam. Até, mesmo, os desconhecidos nos são confortáveis. Pode-se dizer que é um lugar de emoções muito fortes, que nos deixam à beira das lágrimas seja de alegria ou de tristeza.

Qualquer pessoa facilmente imagina, mesmo que nunca tenha ido ver um jogo no Estádio, o que se sente quando se sobe as escadas em último lugar e se recebe a Taça na tribuna de honra, aos olhos de todos os que estão cá em baixo. Sim, é essa a sensação que se tem quando se está lá em cima, vitoriosa: os outros, estão lá em baixo. Não por sobranceria, mas porque a emoção e a alegria são contagiantes e só pensamos em nós e em festejar com os nossos.

Mas, lá em baixo, depois da bancada central, no relvado onde ainda há momentos se disputava arduamente cada lance, está a outra equipa. Refém do fair-play, resiste estoicamente aos festejos das vitoriosas, aguardando que elas desçam, para depois ir procurar conforto junto dos seus.

E, na grande maioria das vezes, no relvado a assistir à coroação das vencedoras, estão jogadoras tão  ou mais talentosas do que estas. Que num golpe de sorte poderiam ter ganho o jogo e estarem, naquele momento, de papéis invertidos.

Vem tudo isto a propósito da final de domingo, que opôs Sporting e Braga e no qual o primeiro saiu vencedor.

É reconhecido o valor do Braga enquanto equipa e as suas jogadoras são das mais talentosas em Portugal, sendo algumas internacionais portuguesas da mais fina estampa.

E quer o destino, há mais de uma época seguida, que essas mesmas jogadoras não consigam ganhar a Taça de Portugal. Algumas há, que nunca tendo conquistado sequer uma Taça, a perdem há três épocas consecutivas. Para a qualidade que evidenciam, é um castigo muito severo. E deixa em aberto uma ideia, que nem sempre é percebida por quem não está 'dentro' do futebol: os títulos dão currículo, mas quando se procura talentos tem de se ver mais além do que isso.

Imagino que, para essas jogadoras, o acordar na segunda-feira não tenha sido simpático. E que todas as frases feitas que se dizem nessas circunstâncias, não tenham sido recebidas da melhor maneira.

Mas, a verdade é que a vida prossegue. E a vida de uma futebolista prossegue também, tenha lá o desgosto o tamanho que tiver!

Agora é tempo de férias para algumas, para outras compromissos da selecção. E todos esperamos que a nova época traga uma energia revigorada e uma vontade enorme de mudar o rumo da história por parte de todas elas. A bem da competitividade do nosso futebol feminino.

[Texto de Anabela Mendes, originalmente publicado no site do Sindicato dos Jogadores]

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Sporting CP venceu a Taça de Portugal Feminina num jogo emotivo

Triunfo por 1-0 após prolongamento, dá a Taça ao Sporting

Os 11.714 espetadores que se deslocaram ao Estádio Nacional para assistir ao jogo não deram o seu tempo por mal empregue.

Não se pode dizer que tenha sido um jogo de encher o olho, mas foi sem qualquer dúvida emotivo, disputado em toda a dimensão do campo, com ambas as equipas a quererem ganhar. E como antecipei numa outra ocasião, o jogo acabou por se decidir nos detalhes, a exemplo do observado em outros encontros entre estas duas equipas.

Entrou melhor o SC Braga, a impor o seu jogo e desde logo começou a brilhar aquela que será a grande responsável pelo clube minhoto ter saído derrotado: Patrícia Morais, que negou todas as hipóteses criadas pelo SC Braga para marcar (e foram umas quantas flagrantes), especialmente em lances de bola parada. Só não conseguiu chegar à bola cabeceada por uma jogadora do SC Braga (Francisca Cardoso), que resultou num golo efusivamente celebrado pelas atletas e comitiva bracarense, mas que o VAR viria a anular por fora de jogo.

O tempo passava e percebia-se que ambas as equipas não queriam arriscar e iríamos ter prolongamento. O cansaço começava a dar sinais (a época já vai longa e ainda não terminou para um conjunto de jogadoras) e sairia vencedora quem fosse mais eficaz nas oportunidades que criasse. O golo de Diana Silva é de levantar qualquer estádio em qualquer parte do mundo, com um pontapé fenomenal a mais de 30 metros da baliza adversária, apanhando todos de surpresa, inclusive a guarda-redes do SC Braga (Rute Costa), que bem se esticou.

O SC Braga não baixou os braços em momento algum e na etapa complementar do prolongamento viu Patrícia Morais negar, em duas situações consecutivas, remates que levavam o selo de golo.

Até ao final, o Sporting CP limitou-se a gerir o tempo de jogo que faltava, mas ainda teve força para, num remate bem colocado, enviar a bola ao poste.

No fim, é o que se sabe, festa das verde e brancas contrastando com a enorme tristeza das jogadoras do SC Braga, que estavam inconsoláveis por ver fugir a conquista da Taça de Portugal.

Parabéns ao Sporting CP por mais uma conquista para o seu historial. Parabéns, também, ao SC Braga por ter sido um adversário que vendeu muito cara a vitória da equipa leonina.

Estas equipas voltam a encontrar-se para a disputa da Supertaça no arranque da próxima época. Agora, tempo para recarregar baterias, preparar a nova época e renovar objetivos.

Até setembro!

[Texto de Maria João Xavier, originalmente publicado no sítio do Sindicato dos Jogadores]

domingo, 27 de maio de 2018

A Festa do Futebol volta ao Jamor – Final da Taça de Portugal Feminina

Tenho assistido com enorme perplexidade aos acontecimentos que têm envolvido a instituição Sporting CP.

O ambiente tenso que se vive em Alvalade não permite serenidade para nenhuma das modalidades que ainda se encontram em competição e com títulos para conquistar. Mas, mais preocupante (na minha perspetiva) é como vão preparar a próxima época com tamanha instabilidade. Porque não haja ilusões, o Sporting CP tem 55 modalidades, todas elas com provas dadas e títulos conquistados, mas a força motriz dos clubes é o futebol profissional, que gera receitas e convence patrocinadores.

Mas o título deste texto diz respeito à segunda competição em Portugal relativamente ao futebol feminino e que garantidamente o Sporting CP vai querer ganhar e proporcionar mais uma alegria aos seus adeptos e associados. Do outro lado estará o SC Braga, uma equipa serena e que tem preparado a grande final sem o reboliço de emoções (que também é disso que se trata) e que, claramente, irá aproveitar (se a oportunidade surgir) as mazelas que estas últimas semanas têm deixado em qualquer atleta que represente o clube verde e branco.

Acredito que a equipa técnica do Sporting CP esteja a fazer os possíveis para proteger o grupo de trabalho, a desenvolver o seu trabalho e a preparar o jogo do próximo domingo com enorme cuidado. Ao contrário do ocorrido na mesma competição na versão masculina, no passado dia 20 de maio, não estamos perante dois adversários com qualquer tipo de desnível... Nem o Sporting CP é o Golias e muito menos o SC Braga será em momento algum o David. A época assim mostrou que a reconquista da Liga Allianz pelo Sporting CP se decidiu em detalhes, especialmente no jogo em Braga. Espero que a final do próximo dia 27 não se resolva em detalhes, mas sim que seja mais um excelente espetáculo de futebol.

O empate não será resultado possível e subir à escadaria enquanto vencedor é algo inexplicável para qualquer jogadora e elemento da equipa técnica. O Sporting CP já viveu esses momentos a época passada enquanto equipa e tem no seu plantel atletas repetentes por outros clubes. O SC Braga vai garantidamente desenvolver todos os esforços para impedir o clube de Alvalade de repetir a façanha e, naturalmente, vai colocar em campo a estratégia que melhor se adequará para conquistar o primeiro troféu do seu historial após o regresso da modalidade ao clube.

É minha perceção que o Sporting CP irá sentir mais a responsabilidade do jogo e o peso que ele acarreta para os adeptos e associados leoninos, que necessitam urgentemente de uma vitória e outro troféu para poderem serenar os ânimos que tão exaltados têm andado.

O SC Braga "não tem nada a perder", sentindo igualmente a responsabilidade do jogo, mas sem ter a carga emocional adicional que as jogadoras do Sporting CP vão ter de lidar do início ao fim do jogo.

Desejo sinceramente que os adeptos de ambos os clubes se desloquem massivamente ao Jamor e celebrem a Taça com a festa que a caracteriza e que consigam colorir o Estádio Nacional com as cores dos dois clubes.

A moldura humana (nada desprezível) da época passada com mais de 12 mil espetadores (tomara grande parte dos clubes da Liga NOS terem essas assistências em todos os seus jogos) será sempre uma das imagens que guardo com maior carinho e orgulho de um jogo de mulheres e raparigas.

Que seja mais um dia memorável desta modalidade que nos apaixona.

Bom jogo e boa sorte para todos os intervenientes!

(texto publicado originalmente no sítio do Sindicato dos Jogadores).

"Minas de futebol" - o convite do Offside Lisboa

Offside Lisboa, um Festival de Cinema e Bola, convidou-nos para fazermos a apresentação do filme "Minas de Futebol". Para um público maioritariamente desconhecedor da realidade do nosso futebol feminino, procurámos com o relato da nossa experiência pessoal preparar o terreno para a projecção do filme. Fica aqui um pequeno vídeo para quem não esteve lá e para memória futura.