quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Os palcos do futebol feminino

Texto inicialmente publicado no Futebol Feminino em Portugal


Na sua terceira edição, a Supertaça Feminina Allianz, apresentou-se em estádio grande, para fazer jus à dimensão dos clubes envolvidos – Sporting Clube de Portugal e Sporting Clube de Braga.
Pensar-se-ia, com isto, que a assistência seria ao nível da Taça de Portugal, mas já em edições anteriores se percebera que a adesão não é, nem de longe nem de perto, a mesma. Acredito que o efeito Jamor, e o seu historial nas finais da Taça, tenha um efeito extra na massa adepta.
O Estádio Cidade de Coimbra é simpático, apesar daquela pista de atletismo que nos distancia do fulcral: o terreno de jogo.
A organização teve um rol de problemas, que não foram condizentes com o espectáculo e o recinto engalanado: desde seguranças indelicados, a casas de banho sem luz (do género de ser preciso recorrer ao telemóvel para se ver alguma coisa) e a cheirarem mal, e um bar que só funcionava por clubes (sendo que como estava colocado mais perto da claque do Sporting de Braga, só esses adeptos podiam utilizá-lo durante o intervalo, tendo os restantes adeptos que esperar o jogo começar para o bar estar vazio).
Desde a época passada, em que foi criada a Liga Allianz com a entrada de grandes clubes nacionais, que existe um novo paradigma no futebol feminino em Portugal. A competição tornou-se diferente, reduzida a dois clubes com hipóteses de ganharem troféus, porque dotados de condições excepcionais e só ao alcance de alguns. Não me vou debruçar sobre a parte desportiva deste novo paradigma.
O que me desagrada é que tenha sido trazido para o futebol feminino o pior do futebol masculino, em maior escala do que já havia. Claques a entoarem cânticos ordinários, seguranças que ficam histéricos e não deixam que o público se misture (vi uma senhora com a camisola da Rute Costa – guarda-redes do Braga – sentada no meio dos adeptos do Sporting, tranquilamente e sem ninguém a incomodar), estádios gigantes e que depois não têm condições para receber as pessoas, principalmente as mulheres, essas mesmas de que tanto se fala serem o novo público-alvo do futebol.
Em relação ao comportamento dos adeptos, é certo que já havia campos com público difícil, mas penso que esta é uma área em que se pode desenvolver trabalho. Mudar o rosto do público no futebol feminino seria uma grande aposta. E essa aposta tem de começar a ser feita a partir de baixo, desde os escalões de formação.
Também as condições de alguns campos não são as melhores. Volto a referir as instalações sanitárias, por ser um assunto de maior importância quando se é mulher. Trazer as mulheres para o futebol exige um novo olhar que seja amplamente periférico. Tem de haver sensibilização junto dos clubes para melhorarem as suas instalações, quiçá ajudá-los a pôr em prática ideias que já têm.
Convém não esquecer que, apesar de todo o brilho que se faz quando o Sporting e Braga se encontram, a ampla maioria dos jogos da Liga Allianz são presenciados por adeptos que são amigos e familiares das jogadoras. Tudo numa escala proporcional à dimensão dos clubes. É aí que tem de começar o trabalho. Só assim se estará a fazer um verdadeiro investimento na promoção do futebol feminino.