terça-feira, 19 de junho de 2018

2017/2018 - A época em revista


A época que agora terminou confirmou todo o potencial da equipa do Sporting CP que revalidou o título nacional da Liga Allianz, reconquistou a Taça de Portugal e adicionou a estes troféus a conquista da Supertaça, tendo sempre como adversário direto o SC Braga.

A época começou bem cedo para o Sporting CP com a participação no mini torneio de qualificação para a UEFA Women's Champions League (UWCL), realizado em Budapeste, Hungria. Nesta primeira participação a equipa verde e branca não conseguiu passar à fase seguinte, após ter perdido o jogo inaugural.

Internamente, a época começou a 3 de setembro com a realização da Supertaça tendo como equipas os suspeitos de sempre, Sporting CP e SC Braga. O jogo, analisado na altura, valeu pela emoção e incerteza do resultado, especialmente quando o SCP empata já em período de compensação e leva a decisão para prolongamento. Nestes 30 minutos, o SCP revelou-se melhor a todos os níveis o que não é de estranhar dado que nesta altura já tinha realizado jogos altamente competitivos como os que são os do MT da UWCL. Este foi talvez em toda a época o jogo em que o SC Braga esteve mais perto de derrotar o Sporting CP e conquistar o seu primeiro troféu, desde que regressou à modalidade.

A Liga Allianz muito cedo ficou decidida contrariamente ao que os treinadores sempre deram a entender (o que se percebe, há que motivar as jogadoras e manter os adeptos em redor das equipas). Ao triunfar em Braga, na 3ª jornada (30 de setembro 2017), a equipa leonina deu um passo de gigante rumo ao bi campeonato, como viria a acontecer. O empate verificado em Vila Verde pelo SC Braga na 6ª jornada aumentou a diferença pontual para 5 pontos, sendo que a 5 de novembro a Liga Allianz estava entregue. Para poder aspirar a mudar este cenário o SC Braga teria que ter feito muito mais no jogo em Alvalade, mas o jogo foi muito pouco emotivo.

Uma palavra de reconhecimento a todas as outras equipas que participaram na Liga Allianz, que lutam com "armas" desiguais quando comparado com estas duas grandes equipas. Nem o Estoril Praia, que se reforçou e bem para os lados de Benfica conseguiu fazer mossa pese embora o empate alcançado quando recebeu o Sporting CP. A diferença de argumentos é abissal e assim irá manter-se (ou até mesmo aumentar).

Admito que este texto peca por não ter uma abordagem ao Campeonato de Promoção. Não porque seja uma competição menor mas por manifesta falta de disponibilidade para acompanhar estes jogos. Sei, todavia, que há muitas jogadoras com enormes potencialidades e que aguardam a sua oportunidade para dar o salto para uma equipa de nível superior.  Deixo o desafio a quem segue esta competição para relatar as incidências da mesma. Até porque a conquista do título por parte da Ovarense está envolta em grande polémica e seria importante que tudo ficasse devidamente esclarecido em nome da verdade desportiva.

A Final da Taça de Portugal, disputada no final de maio foi outro espetáculo fantástico. Mais uma vez, a vitória sorriu ao Sporting CP, já no prolongamento, depois de um jogo em que o SC Braga viu um golo ser anulado (e bem) pelo VAR e dispôs de várias oportunidades flagrantes para se adiantar no marcador. O disparo a mais de 30 metros da Diana Silva só parou no fundo das redes da Rute Costa.

Umas notas finais para a seleção feminina. A eliminação da fase final do Campeonato do Mundo de 2019, em França ficou consumada no passado dia 8 de junho, com a derrota em Florença, contra a Itália. Portugal iniciou esta caminhada com a moral em alta depois da participação história no EURO 2017, na Holanda. O grupo não se antevia fácil mas permitia efetivamente sonhar com a qualificação. A derrota no jogo inaugural, contra a Bélgica, foi um enorme balde de água fria mas nada estava perdido. Portugal retomou a senda vitoriosa impondo uma goleada à Moldávia e ganhava alento para o jogo contra a Itália, realizado no Estoril. Se há jogo que em que a sorte não protegeu Portugal e nada quis connosco foi este. O pragmatismo italiano voltou a fazer das suas.

Pelo meio, Portugal realizou um brilhante percurso na Algarve Cup, garantindo um 3º lugar nunca antes alcançado e mostrou toda a sua evolução a países que normalmente não se cruzam no nosso caminho. As opiniões foram unânimes mas esta foi a que eu melhor retive.

Agora é tempo de recuperar e recarregar baterias. As exigências da próxima época estão aí à porta. O Sporting CP é o primeiro a entrar em ação com a participação, novamente, no mini torneio de qualificação para a UWCL, logo no inicio de agosto (a época será longa).

Para a próxima época teremos outros motivos de interesse e que vão aumentar seguramente a visibilidade do futebol feminino nacional. Refiro-me, especialmente, ao arrancar da equipa do SL Benfica e das suas legitimas aspirações a chegar à final da Taça de Portugal.

Mas sobre isto, falaremos noutra oportunidade.

Agora é tempo de apoiar a nossa seleção maior no Mundial da Rússia.

Boas férias.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Conseguirá o futebol feminino mover multidões?



Nas últimas semanas decorreram vários jogos de relevo pelo mundo fora e que foram noticia não só pela importância das respetivas competições mas sim pelo número de espectadores que se deslocaram ao estádio para assistir ao vivo e a cores aos vários jogos.

Quem é que não se lembra da final do Campeonato do Mundo de 1999, entre os Estados Unidos da América (EUA) e a China, realizado nos EUA e que teve uma assistência de 90 185 espetadores?

Mas se a nível de selecções já havia registos bastante animadores sobre o número de espectadores (basta recordar os jogos da Holanda no seu país para o EURO 2017 e mais recentemente num dos jogos de qualificação para o Mundial 2019), a nível de clubes não é frequente ter-se informação tão detalhada. De forma que quando é divulgado que o jogo que iria atribuir o título de campeão da Liga MX Femenil (México) teve uma assistência de 51 211 espetadores no estádio, a surpresa é enorme (pelo menos para mim foi). Mas não se ficou por aqui dado que a Final da Taça de Inglaterra entre o Chelsea e o Manchester City levou ao Estádio de Wembley 45 423 adeptos. É obra, há que reconhecer.

Internamente, não andamos longe do que se vai vendo pela Europa fora. O aparecimento de equipas como o Sporting CP e o SC Braga veio dar à modalidade um impulso (e destaque) nunca antes observado bem como fez regressar a Portugal um conjunto de jogadoras que evoluíam em equipas estrangeiras e, com elas uma melhoria significativa na qualidade dos jogos. Aliás, os jogos do Sporting CP realizados em Alvalade representam as maiores assistências registadas na Liga Allianz e ambas as finais da Taça de Portugal, entre o Sporting CP e o SC Braga, as maiores assistências no nosso futebol feminino (mais de 12 000 e 11 714 espetadores em 2016/2017 e 2017/2018, respetivamente). Pode parecer uma tremenda injustiça para as equipas que andam há décadas a lutar pelo futebol feminino nacional, mas a mercado funciona assim mesmo. Espero que consigam crescer também com este destaque que agora se observa. Seria de elementar justiça.

A juntar a esta assistência no estádio, não podemos negligenciar os números fantásticos da assistência através da RTP 1, com mais de meio milhão de espetadores. Para a próxima época teremos mais uma equipa a contribuir para esta dinâmica, o SL Benfica, que mesmo entrando pelo Campeonato de Promoção vai apostar bem forte para chegar à final da Taça de Portugal no ano de estreia.

Mas, como surgem estas assistências pouco usuais no futebol feminino? Bom, isso pode ser explicado de várias perspectivas mas a partir do momento em que a FIFA reconhece que o futebol feminino é o futuro cria-se uma nova marca que, para ter sucesso, tem que ser apetecível comercialmente. Tomando por exemplo Ligas tão competitivas como a alemã, inglesa e francesa, regra geral, são equipas destas ligas que discutem o apuramento para a Final da UEFA Women's Champions League (UWCL) até às últimas eliminatórias (este ano estiveram nas meias-finais 2 equipas inglesas, Chelsea e Mancherter City). A final deste ano, em Kiev, disputada entre o Lyon e o Wolsburgo teve uma assistência acima dos 11 000 espetadores. 

Quem se recorda da Final disputada, em 2014, em Lisboa? Foram 11 217 os espetadores que se deslocaram ao Estádio do Restelo para assistir a três espectáculos num só... A vista fenomenal que o estádio proporciona sobre Lisboa, a final entre o Wolsburgo e o Tyresö FF e no final foram brindados com um concerto do Anselmo Ralph.

Mais recentemente, o presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, afirmou que a final da UEFA Women's Champions League irá tornar-se num dos pontos altos do calendário por direito próprio. Tanto é que a edição de 2017/2018 foi a última em que ambas as finais desta competição se disputaram na mesma cidade.

Se num dado momento a fórmula foi importante para dar impulso à final feminina, atraindo mais comunicação social e espetadores (uma vez que se disputavam com um dia de intervalo, feminina à quinta-feira e a masculina ao sábado), atualmente torna-se cada vez mais complicado conseguir logisticamente acomodar os milhares de adeptos que se deslocam massivamente para as cidades onde se disputam as finais. Mas esta separação permite, especialmente, promover cada vez mais a final feminina e negociar direitos (televisivos, por exemplo) individualmente sem estar incluída no pacote negociado para a final masculina.

É, sem dúvida, um avanço tremendo e uma mudança na forma de pensar (e mesmo negociar). A cidade de Budapeste será o palco para a final feminina de 2018/2019 enquanto a masculina será realizada em Madrid.

Não só em Portugal se assiste à entrada dos chamados clubes grandes no futebol feminino. Na vizinha Espanha apenas o Real Madrid continua resistente mas os seus maiores rivais (Barcelona e Atlético de Madrid) têm equipas que dão cartas pela Europa fora. Também de Inglaterra chegam boas noticias, com a criação de equipa feminina no Manchester United de forma a dar continuidade ao projeto de formação que tão boas jogadoras têm formado para depois serem contratadas por outras equipas, que agora serão adversárias. Mais recentemente, boas novas de Itália com o Milan a comunicar a intenção de criar uma equipa feminina (através da aquisição dos direitos desportivos do Brescia) e, com toda a certeza, discutir taco a taco as várias competições com a Juventus.

Sejamos honestos, são os clubes grandes que movem multidões, que chamam espetadores aos estádios e "exigem" mais atenção por parte das Instituições que regem o futebol feminino. A FIFA e a UEFA viram e perceberam rapidamente que há um novo filão a explorar (e bem) mas isso só ocorre porque o que se traduz dentro do terreno de jogo são espetáculos de enorme qualidade técnico-táctica, através de jogadoras com capacidades desportivas elevadas, capazes de fazer maravilhas com a bola e assim captar e cativar os adeptos de futebol. Se assim não fosse, o futebol feminino não se tornaria numa marca apetecível.

Sim, o futebol feminino vai ter destaque por si só e vai mover multidões!

Porque fez por merecer esse destaque!

Porque a qualidade dos jogos e as suas jogadoras assim o exigem!

quarta-feira, 6 de junho de 2018

InStat - conclusões


"A plataforma InStat foi um meio que a FPF encontrou para ajudar os treinadores das equipas da Liga Allianz a incrementarem a qualidade do seu trabalho. Algumas funcionalidades são: a disponibilização da gravação do jogo completo, a sectarização dos momentos do jogo, a análise individual das jogadoras, da comparação do desempenho entre as jogadoras de ambas equipas presentes no jogo e a possibilidade de se fazer download desses dados para um disco rígido". 

Este trabalho foi realizado pela página passes em profundidade para o portal futebol feminino Portugal, com a colaboração da sports and girls e termina agora com a reflexão sobre o que nos propusemos fazer e divulgar a quem nos segue. A primeira abordagem a este tema foi realizada neste texto. Foram elaboradas 6 questões diretamente relacionadas com a potencialidade da aplicação.

Em primeiro lugar, agradecer a todos os treinadores que nos facilitaram o trabalho e responderam ao repto lançado, que nos permitiu calendarizar a divulgação antecipadamente e ter duas opiniões por semana, uma à terça-feira e outra à sexta-feira, como devem ter reparado. A divulgação das respostas no portal futebol feminino tentou seguir a ordem da classificação em que terminaram as equipas a sua participação na Liga Allianz de 2017/2018.

Este trabalho teve o privilégio de obter a resposta de 11 dos 12 treinadores da Liga Allianz, que muito nos alegra e motiva para continuarmos diariamente a trabalhar para a promoção e divulgação do futebol feminino nacional.

Em jeito de resumo, podemos afirmar que a unanimidade nas respostas relativas à pertinência da disponibilização desta aplicação, por parte da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), aos treinadores da competição citada. O que, naturalmente, não é de estranhar tal a qualidade e multiplicidade de dados estatísticos que disponibiliza aos treinadores. Desde a possibilidade de analisar à lupa o desempenho da equipa na globalidade e das jogadoras individualmente terminando naquele que é o grande trunfo desta aplicação: a disponibilização das imagens de todos os jogos permitindo conhecer e analisar a própria equipa e as equipas adversárias. Não que tenha provocado grandes alterações nas programações semanais dos treinos mas permitiu antecipar algum tipo de situações de jogo e aperfeiçoa-las em situação de treino.


Por outro lado, este tipo de ferramenta não estaria ao alcance dos clubes da Liga Allianz, com excepção do Sporting CP e o SC Braga, que dispõem de outras condições de trabalho e as suas equipas técnicas têm outros meios para analisar os jogos. Ou seja, permitiu a que todos os treinadores da Liga Allianz estivessem em pé de igualdade na análise de jogos. Obviamente que depois faltam outras condições, nomeadamente o tempo de treino e de reunião com a equipa para que sejam passadas para a prática as possíveis melhorias. E nisto, não há milagres.

Algumas situações poderão ser revistas e melhoradas para a próxima época por parte da FPF mas há algumas condicionantes para a qualidade das imagens captadas, como por exemplo, as poucas condições estruturais de alguns campos que impede que seja possível efetuar a gravação dos jogos. Mas contra isto nada a fazer, são as condições que os clubes e as equipas dispõem.

É importante sublinhar e enaltecer a iniciativa da FPF e o que esta contribuiu para os treinadores e suas equipas. Não é o suficiente, é certo. Não faz frente a muitas dificuldades e obstáculos que as equipas enfrentam dia após dia.

Mas por algum lado se tem que começar! Que seja pela melhoria da qualidade e promoção da competitividade das equipas.

Boas férias!

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Taça de Portugal - a prova mais dolorosa de se perder



A Taça de Portugal é, muito provavelmente, a prova que toda a gente quer ganhar.

Não só porque é mais fácil de sonhar com a final, mesmo estando-se numa equipa mais modesta, mas porque acontece num espaço que é mítico. É mítico por todas as gerações que já subiram aquela escadaria e foram consagradas na tribuna de honra, mas também pela sua própria construção, que faz com que a nossa cultura visual nos remeta para o Olimpo.
 
Em boa hora a FPF trouxe a organização da final no feminino para o Estádio Nacional. Subir aquelas escadas é uma sensação única, seja como vencido ou como vencedor. Em ambas as circunstâncias vislumbramos caras conhecidas que nos sorriem, mãos amigas que nos tocam, palavras que nos incentivam e consolam. Até, mesmo, os desconhecidos nos são confortáveis. Pode-se dizer que é um lugar de emoções muito fortes, que nos deixam à beira das lágrimas seja de alegria ou de tristeza.

Qualquer pessoa facilmente imagina, mesmo que nunca tenha ido ver um jogo no Estádio, o que se sente quando se sobe as escadas em último lugar e se recebe a Taça na tribuna de honra, aos olhos de todos os que estão cá em baixo. Sim, é essa a sensação que se tem quando se está lá em cima, vitoriosa: os outros, estão lá em baixo. Não por sobranceria, mas porque a emoção e a alegria são contagiantes e só pensamos em nós e em festejar com os nossos.

Mas, lá em baixo, depois da bancada central, no relvado onde ainda há momentos se disputava arduamente cada lance, está a outra equipa. Refém do fair-play, resiste estoicamente aos festejos das vitoriosas, aguardando que elas desçam, para depois ir procurar conforto junto dos seus.

E, na grande maioria das vezes, no relvado a assistir à coroação das vencedoras, estão jogadoras tão  ou mais talentosas do que estas. Que num golpe de sorte poderiam ter ganho o jogo e estarem, naquele momento, de papéis invertidos.

Vem tudo isto a propósito da final de domingo, que opôs Sporting e Braga e no qual o primeiro saiu vencedor.

É reconhecido o valor do Braga enquanto equipa e as suas jogadoras são das mais talentosas em Portugal, sendo algumas internacionais portuguesas da mais fina estampa.

E quer o destino, há mais de uma época seguida, que essas mesmas jogadoras não consigam ganhar a Taça de Portugal. Algumas há, que nunca tendo conquistado sequer uma Taça, a perdem há três épocas consecutivas. Para a qualidade que evidenciam, é um castigo muito severo. E deixa em aberto uma ideia, que nem sempre é percebida por quem não está 'dentro' do futebol: os títulos dão currículo, mas quando se procura talentos tem de se ver mais além do que isso.

Imagino que, para essas jogadoras, o acordar na segunda-feira não tenha sido simpático. E que todas as frases feitas que se dizem nessas circunstâncias, não tenham sido recebidas da melhor maneira.

Mas, a verdade é que a vida prossegue. E a vida de uma futebolista prossegue também, tenha lá o desgosto o tamanho que tiver!

Agora é tempo de férias para algumas, para outras compromissos da selecção. E todos esperamos que a nova época traga uma energia revigorada e uma vontade enorme de mudar o rumo da história por parte de todas elas. A bem da competitividade do nosso futebol feminino.

[Texto de Anabela Mendes, originalmente publicado no site do Sindicato dos Jogadores]

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Sporting CP venceu a Taça de Portugal Feminina num jogo emotivo

Triunfo por 1-0 após prolongamento, dá a Taça ao Sporting

Os 11.714 espetadores que se deslocaram ao Estádio Nacional para assistir ao jogo não deram o seu tempo por mal empregue.

Não se pode dizer que tenha sido um jogo de encher o olho, mas foi sem qualquer dúvida emotivo, disputado em toda a dimensão do campo, com ambas as equipas a quererem ganhar. E como antecipei numa outra ocasião, o jogo acabou por se decidir nos detalhes, a exemplo do observado em outros encontros entre estas duas equipas.

Entrou melhor o SC Braga, a impor o seu jogo e desde logo começou a brilhar aquela que será a grande responsável pelo clube minhoto ter saído derrotado: Patrícia Morais, que negou todas as hipóteses criadas pelo SC Braga para marcar (e foram umas quantas flagrantes), especialmente em lances de bola parada. Só não conseguiu chegar à bola cabeceada por uma jogadora do SC Braga (Francisca Cardoso), que resultou num golo efusivamente celebrado pelas atletas e comitiva bracarense, mas que o VAR viria a anular por fora de jogo.

O tempo passava e percebia-se que ambas as equipas não queriam arriscar e iríamos ter prolongamento. O cansaço começava a dar sinais (a época já vai longa e ainda não terminou para um conjunto de jogadoras) e sairia vencedora quem fosse mais eficaz nas oportunidades que criasse. O golo de Diana Silva é de levantar qualquer estádio em qualquer parte do mundo, com um pontapé fenomenal a mais de 30 metros da baliza adversária, apanhando todos de surpresa, inclusive a guarda-redes do SC Braga (Rute Costa), que bem se esticou.

O SC Braga não baixou os braços em momento algum e na etapa complementar do prolongamento viu Patrícia Morais negar, em duas situações consecutivas, remates que levavam o selo de golo.

Até ao final, o Sporting CP limitou-se a gerir o tempo de jogo que faltava, mas ainda teve força para, num remate bem colocado, enviar a bola ao poste.

No fim, é o que se sabe, festa das verde e brancas contrastando com a enorme tristeza das jogadoras do SC Braga, que estavam inconsoláveis por ver fugir a conquista da Taça de Portugal.

Parabéns ao Sporting CP por mais uma conquista para o seu historial. Parabéns, também, ao SC Braga por ter sido um adversário que vendeu muito cara a vitória da equipa leonina.

Estas equipas voltam a encontrar-se para a disputa da Supertaça no arranque da próxima época. Agora, tempo para recarregar baterias, preparar a nova época e renovar objetivos.

Até setembro!

[Texto de Maria João Xavier, originalmente publicado no sítio do Sindicato dos Jogadores]

domingo, 27 de maio de 2018

A Festa do Futebol volta ao Jamor – Final da Taça de Portugal Feminina

Tenho assistido com enorme perplexidade aos acontecimentos que têm envolvido a instituição Sporting CP.

O ambiente tenso que se vive em Alvalade não permite serenidade para nenhuma das modalidades que ainda se encontram em competição e com títulos para conquistar. Mas, mais preocupante (na minha perspetiva) é como vão preparar a próxima época com tamanha instabilidade. Porque não haja ilusões, o Sporting CP tem 55 modalidades, todas elas com provas dadas e títulos conquistados, mas a força motriz dos clubes é o futebol profissional, que gera receitas e convence patrocinadores.

Mas o título deste texto diz respeito à segunda competição em Portugal relativamente ao futebol feminino e que garantidamente o Sporting CP vai querer ganhar e proporcionar mais uma alegria aos seus adeptos e associados. Do outro lado estará o SC Braga, uma equipa serena e que tem preparado a grande final sem o reboliço de emoções (que também é disso que se trata) e que, claramente, irá aproveitar (se a oportunidade surgir) as mazelas que estas últimas semanas têm deixado em qualquer atleta que represente o clube verde e branco.

Acredito que a equipa técnica do Sporting CP esteja a fazer os possíveis para proteger o grupo de trabalho, a desenvolver o seu trabalho e a preparar o jogo do próximo domingo com enorme cuidado. Ao contrário do ocorrido na mesma competição na versão masculina, no passado dia 20 de maio, não estamos perante dois adversários com qualquer tipo de desnível... Nem o Sporting CP é o Golias e muito menos o SC Braga será em momento algum o David. A época assim mostrou que a reconquista da Liga Allianz pelo Sporting CP se decidiu em detalhes, especialmente no jogo em Braga. Espero que a final do próximo dia 27 não se resolva em detalhes, mas sim que seja mais um excelente espetáculo de futebol.

O empate não será resultado possível e subir à escadaria enquanto vencedor é algo inexplicável para qualquer jogadora e elemento da equipa técnica. O Sporting CP já viveu esses momentos a época passada enquanto equipa e tem no seu plantel atletas repetentes por outros clubes. O SC Braga vai garantidamente desenvolver todos os esforços para impedir o clube de Alvalade de repetir a façanha e, naturalmente, vai colocar em campo a estratégia que melhor se adequará para conquistar o primeiro troféu do seu historial após o regresso da modalidade ao clube.

É minha perceção que o Sporting CP irá sentir mais a responsabilidade do jogo e o peso que ele acarreta para os adeptos e associados leoninos, que necessitam urgentemente de uma vitória e outro troféu para poderem serenar os ânimos que tão exaltados têm andado.

O SC Braga "não tem nada a perder", sentindo igualmente a responsabilidade do jogo, mas sem ter a carga emocional adicional que as jogadoras do Sporting CP vão ter de lidar do início ao fim do jogo.

Desejo sinceramente que os adeptos de ambos os clubes se desloquem massivamente ao Jamor e celebrem a Taça com a festa que a caracteriza e que consigam colorir o Estádio Nacional com as cores dos dois clubes.

A moldura humana (nada desprezível) da época passada com mais de 12 mil espetadores (tomara grande parte dos clubes da Liga NOS terem essas assistências em todos os seus jogos) será sempre uma das imagens que guardo com maior carinho e orgulho de um jogo de mulheres e raparigas.

Que seja mais um dia memorável desta modalidade que nos apaixona.

Bom jogo e boa sorte para todos os intervenientes!

(texto publicado originalmente no sítio do Sindicato dos Jogadores).

"Minas de futebol" - o convite do Offside Lisboa

Offside Lisboa, um Festival de Cinema e Bola, convidou-nos para fazermos a apresentação do filme "Minas de Futebol". Para um público maioritariamente desconhecedor da realidade do nosso futebol feminino, procurámos com o relato da nossa experiência pessoal preparar o terreno para a projecção do filme. Fica aqui um pequeno vídeo para quem não esteve lá e para memória futura. 



quinta-feira, 3 de maio de 2018

Carla Couto, dá-me um autógrafo!

 

Dela, Carla Couto, já toda a gente minimamente ligada ao futebol feminino, e não só, ouviu falar.
O seu talento acima da média fê-la projectar-se ao nível do Olimpo português: a mais internacional, numa altura em que os jogos de selecções não eram tão frequentes, marcadora de golos acima da média, aliados a uma grande elegância dentro de campo.
Partilhámos o balneário, em 1992/93, no Sporting Clube de Portugal. Ela uma jovem cheia de irreverência, alguma indisciplina que não ofensiva, de sorriso no rosto a roçar alguma timidez. A acompanhá-la, indefectivelmente, o pai. O senhor Couto, homem afável e sempre com uma palavra de apoio para todas as jogadoras. (Saudades de pessoas como ele, no futebol).
Aí começava aquela que seria uma carreira brilhante e que todos já conhecem.
O que seria expectável, quando deixasse de jogar e à semelhança de quase todas as ex-jogadoras, é que ela se remeteria a ocupar a sua vida com qualquer outra coisa e, hoje, já só vagamente se falaria dela - apesar do título de jogadora do século.
Mas a Carla, fazendo jus aquela imprevisibilidade que fazia dela uma jogadora muito difícil de travar, surpreendeu-nos a todos. E, à boleia de um Sindicato de Jogadores presidido por alguém que sabe que só com os melhores os frutos aparecem, iniciou um novo percurso no futebol: o de embaixadora do futebol feminino. E quando se ouve a palavra "embaixador/a" fica-se sempre com a sensação de que é um cargo decorativo. Para outros talvez seja, mas não para a Carla. Não para a Carla Couto.
A Carla, aquela que brilhava lá na frente, após o trabalho esforçado de toda a equipa, aquela que durante anos não defendia, desta feita arregaçou as mangas, pegou nas ferramentas que o Sindicato lhe deu e transformou-se no maior veículo vivo de promoção do futebol feminino. Através de visitas às equipas, falando com as jogadoras, apelando ao seu sentido associativo, alertando para os perigos do deslumbramento, mas defendendo as suas condições com veemência junto do próprio Sindicato, percorrendo o país sempre solícita a quem por ela chama, a sua dedicação à modalidade é a todos os níveis ímpar e inatacável.
No passado dia 1 de maio, em Penacova, foi-lhe feita uma homenagem. Daquelas que perduram no tempo. Fizeram um torneio com o seu nome e atribuíram o seu nome a uma academia que pretende dedicar-se ao futebol feminino. Não poderiam escolher melhor figura e o que se deseja é que aquela placa ali se mantenha por muitos e bons anos dando frutos. E quem sabe, dali não saia uma sucessora.
Mas, de todo o evento, aquilo que mais me tocou foi a sessão de autógrafos.
Jovens jogadoras, levadas pelo entusiasmo do que ouviram contar e do que viram, à espera de uma recordação. Mas, e aqui surge o mais importante, esperando pela sua assinatura, pequenos jogadores atentos. E não estavam à espera da assinatura de uma jogadora do seu clube - isso seria demasiado fácil de acontecer.
Não. Estavam ali à espera do autógrafo daquela que eles ouviram falar que tinha sido uma grande jogadora. Sem preconceitos, sem vergonha, assumidamente - realmente, teremos sempre a aprender com as crianças. E este jovens jogadores, serão adolescentes, adultos e pais. E, certamente, olharão para o futebol feminino com respeito, com igualdade.
E esse mérito está, não só por causa do seu talento, mas porque a Carla é uma pessoa cheia de carisma. Simples, com uma alegria infantil, contagiante, que faz eco junto dos mais novos. E eles sentem-se bem recebidos e em pé de igualdade.
 
E, por tudo isto, pela gratidão que tenho por quem tão bem cuida de um futebol feminino tão caro para mim...
 
... Carla Couto, dás-me um autógrafo?
 
 
 
[créditos fotográficos Sports and Girls]
 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Era uma vez…


Todas as histórias começam assim e esta não será diferente. O que me proponho com este texto é descrever a minha visão do aparecimento e crescimento da seleção nacional feminina. Podem questionar-se o porquê de ter decidido agora dedicar umas linhas a este tema. Pensem neste texto como um tributo pessoal a todas as jogadoras que lutaram ano após ano por melhores condições que conduziram ao lugar onde se encontra a seleção nacional atualmente. Além disso, na minha humilde opinião todas as antigas jogadoras devem ver reconhecido o seu esforço. Adicionalmente, a minha decisão também se justifica por si só no facto de não ser um conto de fadas e os primeiros tempos terem sido difíceis com inúmeros obstáculos. Que possa servir de exemplo a não repetir por mais nenhuma instituição que queira promover o futebol feminino.

O primeiro jogo da seleção nacional disputou-se em França, a 24 de outubro de 1981 e o resultado final foi um empate sem golos. Não é uma história antiga mas revela que Portugal esperou 36 anos para se qualificar para uma grande competição (EURO 2017, na Holanda).

Nesta primeira década, a seleção nacional disputou 8 jogos (entre 1981 e 1983). O futebol feminino encontrava-se em franco desenvolvimento pela europa fora e os resultados alcançados demonstravam que Portugal estava no bom caminho para se tornar uma seleção forte na europa. Eu vi o meu primeiro jogo da seleção nacional em lisboa, a 4 de dezembro de 1982. Tinha 11 anos e já jogava futebol num clube de bairro. Recordo-me perfeitamente de ter pensado “um dia vou querer representar a seleção do meu país”.

Mas, sem qualquer aviso, a Direção da Federação Portuguesa de Futebol decidiu suspender a atividade da seleção nacional. Foi uma decisão catastrófica como veremos mais adiante. Mas, o mais estranho desta decisão foi que o Presidente da FPF à data era membro do Comité de Futebol Feminino da UEFA. A decisão não foi entendida por ninguém e por largos anos a evolução do futebol feminino nacional ficou adiada. O sonho das jogadoras foi ceifado, continuaram a jogar o seu desporto de eleição mas sem qualquer esperança de um dia representarem a seleção nacional.

As jogadoras portuguesas tiveram que esperar dez anos para que os seus sonhos se tornassem novamente realidade. Assim, em 1993, pela mão de Carlos Queiróz, assiste-se ao retomar da atividade da seleção feminina. O seleccionador nacional escolhido foi o magriço António Simões, um dos melhores jogadores portugueses de sempre, que integrou as fantásticas equipas do SL Benfica e da seleção nacional, que em 1966 participou no mundial de Inglaterra, onde alcançou um brilhante 3º lugar.

 "Record" setembro 1993
Para o primeiro estágio de observação, realizado em setembro de 1993, foram chamadas 66 atletas. Como se compreende, o seleccionador nacional e restante equipa técnica não tiveram oportunidade de ver as jogadoras a atuar nos seus clubes de forma que a responsabilidade de indicar quais as atletas a convocar foi delegada  nos treinadores dos respetivos clubes que competiam no Campeonato Nacional.

Neste primeiro estágio de observação as jogadoras foram separadas em várias equipas e jogaram todas umas contra as outras. Foi a forma encontrada pelas várias equipas técnicas da FPF para conseguirem observar todas as jogadoras em ação e, desta forma, reduzir o enorme grupo num mais pequeno.

No segundo estágio de observação já só foram convocadas 35 jogadoras. O objetivo era conseguir reduzir o grupo às 25 melhores jogadoras nacionais e, desta forma, iniciar a qualificação para o europeu de 1995, que se iria realizar na Alemanha.

Mas, antes de começar a qualificação para a competição referida, Portugal realizou um encontro particular contra a seleção da Suécia sub 20. Foi o primeiro jogo após 10 anos de interregno. As jogadoras estavam nervosas e sentiram o peso da camisola mas sentiram-se orgulhosas assim que o hino nacional começou a ecoar nos altifalantes do Estádio S. Luís, em Faro. Esse sentimento foi transversal aos espectadores presentes, muitos deles jogadoras e ex jogadoras. Eu era uma delas. Eu não fui seleccionada para o grupo final de 25 jogadoras e reconheço que estava bastante desanimada nesse dia mas nada disso era importante comparando com a emoção de ver a seleção nacional voltar novamente ao ativo. Finalmente, o sonho tinha-se tornado realidade e eu teria a oportunidade de poder representar o meu país. A responsabilidade de merecer uma oportunidade por parte da equipa técnica era minha. E iria fazer tudo que estivesse ao meu alcance para que ela aparecesse.

O resultado não foi o desejado (Portugal perdeu 0- 3) mas permitiu-nos perceber que os 10 anos de interregno de competição foi o pior inimigo para o crescimento.
"Correio da Manhã" novembro 1993


O primeiro jogo oficial após 10 anos de interregno foi realizado em Faro, a 11 de dezembro de 1993, contra a França e a contar para o apuramento para o campeonato da Europa de 1995. Mais uma vez, fiquei de fora das opções do seleccionador nacional mas desloquei-me ao Algarve para assistir ao jogo. Portugal perdeu mas fez um grande jogo, nunca se amedrontando contra uma equipa de nível superior, de tal forma que se não soubessem do nosso interregno ninguém diria que era o primeiro jogo ao fim de 10 anos.

A seleção nacional perdeu os 4 jogos seguintes. Estávamos em fase de construção de uma nova equipa, a diferença entre várias selecções europeias era enorme, especialmente as selecções nórdicas (Suécia, Dinamarca e Noruega), França e Alemanha. No entanto, as jogadoras portuguesas nunca desistiram e procuraram incessantemente a vitória. Nesta altura, os objetivos para a equipa eram definidos jogo a jogo. O primeiro era marcar um golo (que veio a ocorrer no jogo em Fiães, em março de 1994, contra a toda poderosa Itália).
"Record" março 1994

A primeira vitória ocorreu na 1ª edição da Algarve Cup (à data designada de Mundialito de Futebol Feminino), no longínquo ano de 1994, contra a Finlândia, após derrotas nos jogos de grupo contra os EUA e a Suécia.

Na qualificação para o EURO 1995 Portugal alcançou 3 vitórias, duas contra a Escócia (no jogo realizado em Sterling a falta de hino nacional foi o mote para a primeira vitória fora e no jogo em casa, em Almeirim, a primeira goleada infligida pela seleção nacional 8 -2) e contra a Itália, no jogo realizado em Carrara. Foi um escândalo mas a vitória foi inteiramente merecida. Por vezes a falta de humildade e o menosprezo por equipas de nível inferior proporciona este tipo de vitórias. Itália provou do seu próprio veneno). Razão tinha o seleccionador nacional…

"A Bola" junho 1994
A equipa continuava o seu processo de crescimento mas teve sempre que enfrentar inúmeras dificuldades. As mais evidentes eram a falta de estágios de observação ou a realização de jogos particulares. Era frequente a seleção não se juntar por mais de 6 meses o que condicionava o nosso crescimento sustentado. Não sei se alguém que nos lê alguma vez sentiu o querer fazer mais (e melhor) e o corpo não responde às nossas ordens. Infelizmente senti isso mais vezes do que desejaria em muitos jogos. A sensação de impotência foi algo que acompanhou nos períodos iniciais quando em confronto com as melhores jogadoras mundiais. Mas era com estas que podíamos crescer, com aquelas que nos causavam dificuldades e desafiavam todas as nossas qualidades. Não tenho qualquer vergonha em assumir que a seleção portuguesa, não tinha condição física para jogar 90 minutos. A nossa condição física era suficiente para a competição interna (campeonato distrital e campeonato nacional) mas era débil e longe do exigido para os jogos internacionais. Era frustrante mas o pensamento das jogadoras foi sempre “temos que melhorar, é imperioso que consigamos mostrar que temos qualidade para ganhar a algumas das melhores equipas”. Porque, no final o que conta e fica registado é o resultado. E não era muito agradável somar goleada atrás de goleada.

Até ao final da década 1990-1999, Portugal conseguiu, pela primeira vez, qualificar-se para os jogos de playoff tendo em vista o Europeu de 1997 (Noruega). Foi, sem dúvida, uma importante conquista para o futebol feminino nacional e acabou por o mote para continuarmos a crescer e melhorar o nosso desempenho. Não conseguimos a qualificação (o nosso adversário, a Dinamarca seguiu para a fase final da competição) e Portugal teve que esperar até 2017 para viver esse momento único, 20 anos depois. As sementes levaram 20 anos a crescer! Mas agora não há volta possível. O único caminho é seguir em frente e continuar a crescer!

Nesta década, a seleção nacional disputou 69 jogos (vitória 15; empate: 6; derrota: 48) e teve dois seleccionadores nacionais. O já referido António Simões (1993-1996) e Graça Simões (1996-2000). Ambos realizaram o seu trabalho o melhor que conseguiram com as poucas condições disponibilizadas pela FPF na altura. Mas, ainda assim, Portugal foi crescendo, ainda que timidamente. Não há qualquer hipótese de comparação para o que existia há 30 anos para o que é realidade nos dias de hoje. Por vezes penso até onde aquele grupo de jogadoras podia ter chegado se tivessem disposto das atuais condições. Mas é um exercício inglório pois as mudanças observadas ao longo dos últimos anos foram tantas que é utópico sequer pensar em comparações. O legado da Graça Simões foi conduzir Portugal, mais uma vez, aos jogos de playoff para o Europeu de 2001 (Alemanha). Mas, no final da época de 1999/2000 o seu contrato de trabalho não foi renovado e um novo seleccionador nacional foi apresentado e orientado a seleção portuguesa nesses dois jogos, Nuno Cristóvão. De igual modo, Portugal não conseguiu a qualificação mas melhoramos o registo anterior, ao alcançar uma vitória no jogo em casa, disputado em Portalegre, sob condições meteorológicas adversas e impróprias para a prática desportiva, fosse ela qual fosse.

A década seguinte deveria mostrar o crescimento da seleção nacional mas na verdade não foi o que aconteceu. Em julho de 2003 foi elaborado o primeiro ranking para selecções femininas pela FIFA. Portugal ficou colocado na 34ª posição. O trabalho desenvolvido pelo seleccionador nacional Nuno Cristóvão foi de enorme qualidade e foi sob proposta sua (e aceite pela FPF) que surgiu pela primeira vez uma seleção de formação, na altura sub 18, que daria lugar posteriormente origem à de sub 19. Esta foi outra enorme conquista para o futebol feminino nacional e permitiu à nova geração de jogadoras (grande parte integra atualmente a seleção feminina que tão boa conta tem dado de si) a oportunidade de iniciar o crescimento internacional mais precocemente. Mas, mais uma vez, quando as selecções começavam a dar mostras do seu crescimento e outras medidas iam sendo desenvolvidas, o seleccionador Nuno Cristóvão cessa funções na FPF, no final da época 2003/2004. O período mais negro, de sempre, da selecção nacional estava para chegar.
PrintScreen sítio internet FIFA


O novo seleccionador nacional, José Augusto (2004-2007), que foi colega de equipa do António Simões no SL Benfica e na seleção nacional foi o escolhido. E, durante o período que esteve em funções, a seleção nacional caiu da 34ª para a 47ª posição. Foram tempos complicados em que a insatisfação e desilusão das jogadoras era difícil de esconder. Os 3 anos que o Sr. José Augusto comandou a seleção nacional causaram os mesmos estragos que os 10 anos sem competição. Era necessário, mais uma vez, renascer a seleção nacional. Se não acreditam no que digo (que é legítimo), olhem novamente para a figura do ranking. Foram precisos mais 10 anos para subirmos até ao 36º lugar, onde nos encontramos atualmente. E pouco mais há a acrescentar, a não ser que foi uma péssima decisão (na altura) da direcção da FPF interromper o trabalho que estava a ser desenvolvido pelo anterior seleccionador.

No período compreendido entre 2000 e 2009, a seleção nacional disputou 94 jogos (vitória: 19; empate: 13; derrota: 62).

De 2007 ate 2011, foi apresentada a nova seleccionadora nacional, Mónica Jorge, que até então fora treinadora adjunta e que tinha entre mãos a delicada (e enorme) tarefa de reverter todos os estragos causados pelo anterior seleccionador nacional. Mónica Jorge manteve-se no cargo ate ao final de 2011, altura em que integrou uma das listas que concorreu e venceu as eleições para a direcção da FPF. Atualmente, é Diretora da FPF para o futebol feminino. No período de transição, a seleção nacional foi orientada por outros treinadores nacionais (Susana Cova, Pedro Roma,..), tendo num curto período regressado António Violante, que tinha sido adjunto de António Simões, no regresso da seleção em 1993. Finalmente, em fevereiro de 2014, é apresentado o atual seleccionador nacional, Francisco Neto, que já antes tinha colaborado com a FPF na qualidade de treinador de guarda-redes.

E, concorde-se ou não, foi com a Mónica Jorge na direcção da FPF que se alcançaram os melhores resultados desportivos e o crescimento foi sendo consolidado:
  • Qualificação para a fase final do EURO sub 19, 2012 (Turquia);
  • Qualificação para a fase final do EURO sub 17, 2013 (Inglaterra);
  • Qualificação para a fase final do EURO 2017 (Holanda);
  • 3º Lugar na Algarve Cup 2018 (Portugal);
  • Início de atividade de selecções de formação: sub 16 (2014) e sub 15 (2017);
  • Desenvolvimento das competições nacionais;
  • Aumento do número de praticantes em todos os escalões etários;
  • Envolvimento das associações regionais para a importância e relevância do futebol feminino nacional no panorama desportivo;
  • Criação de uma nova competição, Supertaça Allianz;
  • Reorganização de competições nacionais sub 19 e sub 17.
Podia continuar a enumerar mais algumas medidas desenvolvidas desde que a Mónica Jorge assumiu o cargo na direcção mas creio que o mais importante é salientar que ela enfrentou as mesmas dificuldades e barreiras que todos os anteriores seleccionadores de forma que ela sabia o que era preciso fazer para inverter o cenário. Naturalmente que não fez tudo isoladamente. Toda a direcção da FPF está comprometida com o crescimento e desenvolvimento do futebol feminino nacional e apoiaram as mudanças necessárias. E os resultados estão a aparecer, não só na seleção sénior mas também nas selecções de formação.

MJX - dados retirados do sítio da internet FPF
Mas, a questão que se impõe: estamos efectivamente a crescer ou será apenas mais um período bom? Não, a seleção nacional está efetivamente a crescer! Se analisarem o gráfico rapidamente perceberão que estamos a reduzir a percentagem de derrotas e a aumentar a percentagem de vitórias. Não menos importante é observar o aumento do número de jogos disputados de uma década para a outra. Na minha opinião, juntamente com a melhoria altamente significativa das condições de treino e apoio da FPF, é o aumento dos confrontos internacionais que está a permitir a seleção portuguesa de crescer com consistência. De 2000-2009 (94 jogos) para 2010-2019 (121), a selecção nacional já jogou mais 27 jogos que na década anterior. E este valor vai, obviamente, aumentar. Podem ainda relembrar o que já foi escrito neste blogue sobre este tema e rever uma versão condensada desta história.

De qualquer forma, a FPF terá que dar um passo seguinte: envolver e auxiliar os clubes para que estes possam oferecer melhores condições às jogadoras. Pode parecer que não é responsabilidade direta da FPF assumir este papel, mas se assim não for, dificilmente se pode dar o salto qualitativo seguinte. Bem sei que temos dois clubes da Liga NOS (Sporting CP e SC Braga), em que as jogadoras são profissionais e dispõe de condições de excelência para desenvolverem o seu trabalho. Mas não é nem será suficiente. A tendência, se nada for entretanto executado, é para piorar. Estas duas equipas não vão conseguir absorver todas as jogadoras que começam agora a despontar levando a que estas tenham que procurar outros clubes (nem mesmo que criem equipas B, algo que o SC Braga já dispõe). Basta pensar nestas gerações que integram as atuais selecções jovens. Se estivesse no lugar delas iria procurar e exigir melhores condições no meu clube. Eu iria querer continuar a desenvolver as minhas capacidades e competências. Mas sei que para isso, não posso treinar somente 3 vezes por semana e em alguns dos casos, terei que repartir o campo com outra equipa do clube. Além que precisaria de outro tipo de aconselhamento uma vez que todos os detalhes são importantes e irão diferenciar-me entre ser uma boa jogadora ou uma jogadora de excelência.

Estou em crer que este será o próximo desafio para a FPF, para as associações regionais e para os clubes: como podemos potenciar a qualidade e competitividade das nossas competições internas (Liga, Taça de Portugal e Supertaça, bem como as competições de formação) e com isto permitir que as nossas selecções nacionais alcancem melhores resultados ano após ano!

Ambas estão relacionadas!

Acredito que estamos no caminho correto. Acredito, também, que não há retorno possível que nos faça cair, mais uma vez!

End of story!

Once upon a time...


This post intends to describe my view on the beginning and the growth of the women's national team (WNT) in Portugal. At least I’ll try, as this will be my first ever post written in English. You may be wondering I would why I chose to do so now. Think about this post as a tribute to all the former players that fought for better working conditions, year after year, to take the national team where it is now. Also, in my humble opinion, former players deserve recognition for their efforts.
Let's begin!
The first match ever played was held in France and the result was a goalless draw. The kick off was in October 24, 1981 which means this story is not that old. However it shows that the WNT took 36 years to qualify for a major competition (EURO 2017, The Netherlands).
In this first decade, the WNT played a total of 8 matches (between 1981 and 1983). Women's football was growing quickly in Europe and the results showed that the Portuguese WNT was in the right path in order to become a strong team in Europe. I watched my first match of the WNT in Lisbon, December 4, 1982. I was 11 years old at the time and I was already playing football in a neighbourhood team. I remember thinking “one day I want to represent my country”.
But suddenly and without any warning, the Portuguese FA decided to shut down the WNT’s activities. It was a catastrophic decision as we will see further on. The strangest thing about this decision is that the Portuguese FA’s president at that time was a member of the UEFA Women's Football Committee. No one understood that decision which postponed the evolution of women’s football in Portugal for some long. The players’ dreams were stopped but they still kept playing football in their clubs despite not having any hope of representing their national team again.
Portuguese players had to wait ten (10!!) years for their dreams to become true again. In 1993, by the hand of Prof. Carlos Queiróz, the Portuguese FA began (for the second time) the WNT activities. The chosen head coach was Mr. António Simões, one of the best Portuguese players ever, part of the magical team of SL Benfica and national team that took part of 1966 World Cup.

Portuguese newspaper - roster for the first training camp (1993)
66 players were called for the first training camp, in September 1993. Since Mr. Simões and his staff didn't have time to watch every player in action the decision to choose the players had been delegated to the clubs’ coaches.
In that first training camp the players were separated in different teams and played all against all. It was the way found by the Portuguese coaching staff to reduce that huge group into a smaller one.

For the second training camp only 35 players were called. The aim was to find the best 25 players to start the qualification for the EURO 1995 (Germany).
However just before that, the WNT had a friendly match against the under 20 WNT from Sweden, in Faro (Algarve, Portugal). It was the first match in 10 years. The players were nervous and felt the weight of the national shirt but also they felt tremendously proud when the national anthem started. It was a proud moment shared even by the spectators in the stadium, many of them players themselves. I was one of them. I was not chosen for the last 25 group of players. I recognise I was very disappointed that day but that was not important comparing to the emotion of watching the national team playing. However that dream did come true. I would have the chance to represent my country. It was finally my responsibility to show to the national coaches that I deserved my chance.
The result was not what we had wished for (Portugal lost 0-3) but it allowed us to understand that those 10 years without competition had been our own worst enemy.

Portuguese newspaper - reference to the first win of the WNT (1994)
The first official match after the return or the team was against France, in Faro, on December 11, 1993. I wasn't call up, once again, but I did go to Algarve to watch the match. Portugal lost despite having played a very good match. If one didn’t know the story, nobody would say that that was the team’s first match in 10 years.
The Portuguese WNT lost the following 4 matches. We were building up a new team; the gap between other national teams across Europe and ours was huge. However, the Portuguese players never gave up and continuously chased a victory. The objectives were defined match after match. The first was to score a goal (it happened against Italy in March, 1994).
The first win occurred in the 1º edition of the Algarve Cup back in 1994, against Finland after losing to USA and Sweden in the group stage.
In that qualifying group for the EURO 1995, Portugal achieved three victories: two against Scotland and the other against Italy in the away match. It was a scandal for the Italians.
The team was growing but always had to face many difficulties. The training camps weren't held often and sometimes the players would go more than 6 months without getting back together. This didn’t allow the team to grow consistently. I don’t know if you ever felt that you want to do more but your body just doesn't obey your orders. Unfortunately, I felt that in more matches than I wanted to. The Portuguese team wasn’t able to play for 90 minutes. Our physical condition was enough for domestic competitions but it was very far from the demands of international matches. These were frustrating times but players’ thoughts were always "we must improve; we need to show that we can beat some of the better teams". After all, what matters is the final result!
Until the end of the 1990-1999 decade, Portugal was able to qualify for the playoff matches regarding the EURO 1997 (Norway). It was an important achievement for women’s football in Portugal. We didn’t qualify for the competition (Denmark went through) and had to wait until 2017 for that to happen, twenty years later. The seeds took 20 years to grow! But now there’s no way back! The only way is to move forward and to improve.
In this decade, the Portuguese WNT has played 69 international matches (win: 15; draw: 6; lost: 48). In this period Portugal had 2 head coaches, Mr. António Simões (1993- 1996) e Ms. Graça Simões (1996 - 2000). Both have done their job as best they could with few conditions given to them by the Portuguese FA. But even so we were growing slowly.
The legacy of head coach Graça Simões was taking Portugal to the playoff matches for the EURO 2001 (Germany). But then her work contract wasn't renewed and a new head coach was appointed and started with these two matches, against Italy (Mr. Nuno Cristóvão). Same as in 1996 we didn’t qualify for the competition but we won the home match under adverse weather conditions.
The next decade (2000-2009) should have shown the improvement of the national team but it didn’t. In July 2003 FIFA release the first WNT ranking. Portugal was placed in the 34th place. The work done by head coach Nuno Cristóvão was very good and it was under his advice that the first time under 19 WNT was created. It was a huge conquest for women's football in Portugal. The new generation of players would have the great opportunity to start their international experience much earlier. But, once again, when things were really starting to improve, head coach Nuno Cristóvão left the Portuguese FA, end of the 2003/2004 season. The worst period ever for the WNT was arriving.
PrintSreen FIFA website

The new head coach was Mr. José Augusto (2004-2007) who had been Mr. António Simões teammate in SL Benfica and also in the national team. In that period of time, Portugal dropped from 34th to 47th place! It was a very complicated period and the players’ disappointment was difficult to hide. Those 3 years by Mr. Augusto’s command made the same damages as the 10 years spent without competition. There was again the need to rebuild the national team. If you don’t believe me, just look again at the picture. It took another 10 years to rise to 36th place.
In the period from 2000 to 2009, the WNT played 94 international matches (win: 19; draw: 13; lost: 62), 25 more than in the previous decade.
From 2007 to 2011, Ms. Mónica Jorge was named the new head coach of WNT and she had the huge task to revert the damages done by the previous head coach. She stayed in the job until she was elected to the Portuguese FA board where she is currently the head of women’s football. In the transition period the national team the team was guided by other women’s national teams’ coaches until Mr. Francisco Neto was appointed as new head coach, in February 2014.
Like it or not, it was with Ms. Mónica Jorge in the board of Portuguese FA that the major results and improvements were achieved:
  • Qualification for the under 19 EURO, 2012 (Turkey);
  • Qualification for the under 17 EURO, 2013 (England);
  • Qualification for the EURO 2017 (The Netherlands);
  • 3º place at Algarve Cup 2018 (Portugal);
  • WNT: under 16 (2014) and under 15 (2017);
  • Development of the domestic competitions;
  • Increase in the number of players from every age;
  • Empowering regional associations to the relevance of women's football;
  • New domestic competition – Supertaça (SuperCup) Allianz:
  • New format for domestic youth championships.
I could continue naming what happened since Ms. Jorge is on the job but what I think it is more important to underline that it was because of the huge difficulties she had to face while she was head coach that she knew what she had to do to develop women’s football in Portugal. Of course she didn’t do it all by herself. All the board agreed with the needed changes. And the results are showing, not just with the top team but also with the youth teams.

MJX - data collect from the Portuguese FA website
However, are we really growing consistently and in a sustainable manner or is this just another good phase? No, the top Portuguese WNT is really growing! If you analyse the graphic you can easily realise that we are reducing the percentage of "lost" matches and increasing the "win" matches, especially from the decade 2000-2009 to the current one. Other important data is the increasing of played matches from one decade to the other. In my opinion, along with the improvement in trainning conditions for the WNT’s, this is what is really making a difference and is allowing the Portuguese WNT to grow consistently. From 2000-2009 (94 matches) to 2010-2019 (121) the Portuguese WNT already played more 27 matches than in the previous decade (and it will still increase).
Anyway, the Portuguese FA should get to the next step: empowering the Portuguese clubs so they can offer better conditions to the players. I know we have 2 very big clubs, Sporting CP and SC Braga where the players are professional but that’s not enough. These two teams won’t be able to have all the players so they should find others to continue playing in Portugal. But they will need better conditions to keep growing and improve. Think about the younger players that are starting now and have the opportunity to play for the youth national teams. If I was one of them I would demand better conditions to my club. I would want to keep improving my skills and competency. But for that to happen I can’t only practice 3 times a week and sometimes even have to share the pitch with other club teams! I would need other kind of guidance because even the small details make a difference in being a good or being a great player.
I think this is going to be the next challenge for the Portuguese FA, for the regional associations and for the clubs: how can we improve the quality and competitiveness of the major domestic competitions (Allianz League, Portuguese Cup and SuperCup) so that our WNTs can achieve better results, year after year?
Both things are related!!
I'm quite sure that we are on the right path. I believe that we won’t turn back and go down all the way, once again.

End of story!