terça-feira, 7 de maio de 2019

Quo vadis, Sporting?


Quando tudo o que havia para conquistar nesta época já está ganho ou, não estando, o Sporting não está na luta - caso da Taça de Portugal, a questão impõe-se.

Interrompeu-se o ciclo vitorioso de cinco troféus nacionais consecutivos, conquista essa que o Futebol Benfica já tinha logrado alcançar. 

O equilíbrio será cada vez maior entre as equipas nacionais e os ciclos vitoriosos terão tendência a ser cada vez mais curtos, para bem da divulgação e promoção da modalidade. Perdeu, portanto, o Sporting uma ocasião de estabelecer um novo record.

Mas o que terá perdido mais?

Numa primeira análise percebe-se que foi perdendo gás, ao longo destes três anos. A equipa alegre da primeira época foi dando lugar a uma mais lenta, com um futebol cada vez menos atractivo. Apesar disso, foi na segunda época que teve uma maior facilidade em ser campeã. Muito por força dos seus talentos individuais, porque o Braga não conseguiu impor-se e as outras equipas não conseguem, ainda, fazer grande mossa a estas equipas profissionais.

Esta época foi o canto do cisne. A incerteza directiva do início de época trouxe alguma insegurança. E em duas penadas perdem dois objectivos: tentar passar a fase de grupos da Champions, por uma unha negra, sejamos justos, e a Supertaça. 

Tem de haver uma análise muito minuciosa quanto à composição do plantel e estrutura técnica, quando se ganha tudo em duas épocas. A saturação é uma coisa frequente nas equipas femininas, porque as mulheres precisam de projectos que as motivem. 

Houve claramente ao longo deste tempo uma falta de liderança consolidada, uma simbiose entre departamento e equipa técnica, e quando assim é não há projecto que resista. 

O Sporting precisa de gente nova, que areje o status quo da equipa sénior, sob pena de ficar a marcar passo mais uma época. Sendo que com a entrada mais do que certa do Benfica na Liga BPI, as dificuldades irão aumentar. 

Há matéria prima para o projecto do futebol feminino do Sporting continuar vivo e bem vivo, tanto nas seniores como na formação. E certamente não deixará de haver quem queira assumir a responsabilidade dos seus destinos.
 
Para bem do futebol feminino desejo que assim seja! 
 

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Liga BPI - glória ao (inédito) vencedor

Sporting Clube de Braga
Vencedor da Liga BPI 2018/2019

Na penúltima jornada houve campeão. Um novo campeão.
 
O Sporting de Braga, ao fim do terceiro ano do seu projecto ambicioso para o futebol feminino, conseguiu impedir o tri do Sporting e conquistar a Liga BPI.
 
Quando a época começou, envolta em algum secretismo na constituição do plantel, e o Braga disputou a Supertaça com o Sporting, e venceu, logo aí se percebeu que este poderia muito bem vir a ser o ano bracarense.
 
Uma época exuberante, cheia de resultados volumosos, que ia aguçando o apetite e a vontade de vencer. 103 golos marcados e 6 sofridos foram os números que deram um título.

Quando em Dezembro conquista a vitória no terreno do Sporting por 0-2, era consensual de que dificilmente este troféu lhe iria escapar - a gritante diferença entre as equipas profissionais dá para fazer essas contas.
 
Ontem, sem grande brilhantismo, conseguiu impedir a vitória do Sporting, garantindo a conquista a uma jornada do fim.
 
Não há essa questão do merecimento, quando se fala de campeões. Todos os campeões são merecedores, porque é assim que se tem de encarar o desporto. O que pode haver são equipas que mereciam não perder, mas como só pode haver um vencedor, quem ganha merece sempre ganhar! E nem o afastamento da Taça de Portugal, com derrota em casa com o Benfica, ofusca o brilho deste título.
 
Um destaque especial para Vanessa Marques, a capitã do Braga. 23 anos de puro talento e maturidade competitiva, é ela a figura da equipa. A juntar ao título colectivo, está à beira de se sagrar a melhor marcadora da Liga BPI - nada mau para uma média.

Glória às jogadoras do Braga, honra às do Sporting!

sábado, 4 de maio de 2019

Liga BPI - Braga e Sporting no jogo do título


Quase a terminar, a Liga BPI “guardou” para a penúltima jornada a discussão do título, depois das descidas e permanências terem ficado decididas na última jornada. Os restantes jogos serão feitos em velocidade de cruzeiro.

Ovarense vs Clube de Albergaria - a Ovarense atingiu a tranquilidade na jornada passada, por via da derrota do Vilaverdense. Irá receber um Clube de Albergaria que está em quinto e quererá manter esse lugar a todos os títulos honroso. 

Braga vs Sporting - o jogo que irá concentrar todas as atenções e que ditará o novo campeão nacional, apesar de ainda faltar uma jornada. Braga tem vantagem acrescida, não só porque tem mais três pontos, mas também porque venceu por 0-2 o primeiro confronto. A derrota frente ao Benfica para a Taça de Portugal deixou o Braga em alerta máximo, não se esperando quaisquer facilidades concedidas. O Sporting tem noventa minutos para salvar a época, sendo que a salvação se cifra numa vitória por uma diferença de três golos. Será preciso uma exibição perfeita, sem mácula e ainda poderá não ser o suficiente. Mas espera-se que seja um jogo de luta permanente, muita tensão e talvez nem sempre de muita qualidade. 

Futebol Benfica vs Boavista - um Futebol Benfica tranquilo no seu terceiro lugar, tendo mantido uma regularidade pontual impressionante, em que desponta o excelente trabalho da jovem treinadora Madalena Gala. Recebendo um Boavista já despromovido, irá procurar manter a tónica vitoriosa. Para o Boavista será um jogo de cumprir calendário, procurando adiar o golo do Fofó e espreitando  a possibilidade de marcar.

Estoril Praia vs Ouriense - duas equipas com percursos díspares na Liga BPI. O Estoril começando menos bem, tendo recuperado posições com o decorrer da prova. E o Ouriense no sentido inverso, começando de forma fulgurante, mas perdendo o fôlego e sendo bastante inconstante nos resultados. Tudo está decidido para ambas as equipas, mas o Estoril deverá querer manter o terceiro lugar, logo jogará para vencer. Veremos como se portará o Ouriense frente a uma equipa com um ataque bastante eficaz.

Marítimo vs Vilaverdense - um dos estreantes da prova, o Marítimo tem tido um desempenho muitíssimo bom, estando em sexto lugar, superando todas as expectativas. Já não conseguirá subir de posição, mas tem ainda dois jogos para fazer o maior número de pontos possível. Frente a um Vilaverdense com o destino da descida já traçado, a vitória da equipa da casa parece bastante provável.

A-dos-Francos vs Valadares Gaia - entre duas equipas cujos resultados são sempre imprevisíveis, qualquer coisa pode acontecer. O Valadares já só deve estar a pensar na Taça de Portugal e ainda tem dois jogos para afinar estratégias. O A-dos-Francos está tranquilo e pode muito bem surpreender a equipa de Gaia.

Num jogo de extrema importância para a decisão do vencedor da Liga BPI, desejamos que a equipa de arbitragem tenha o maior sucesso. O futebol feminino não precisa das polémicas sobre a arbitragem que tem o futebol masculino. 

sábado, 27 de abril de 2019

Liga BPI - Braga com teste difícil



Após um fim de semana de intervalo, para as segundas mãos das meias finais da Taça de Portugal, regressa a Liga BPI.
Estamos a três jornadas do fim e ainda está em aberto o vencedor da prova e os que irão descer à 2ª Divisão.
Aguarda-se com algum interesse a reacção à eliminação do Braga da Taça de Portugal, em casa com uma copiosa derrota frente ao novíssimo Benfica.

Valadares Gaia vs SC Braga - o Valadares está cheio de motivação pelo apuramento para a final da Taça de Portugal. Pode ser um factor preponderante para o jogo de hoje, já que tem tido resultados muito inconsistentes. Um Braga ferido, talvez não seja o melhor adversário. A equipa minhota tem de pontuar para continuar com alguma margem em relação ao Sporting, que irá receber na próxima jornada. Depois do desnorte do jogo da Taça, em que o Braga nunca se encontrou durante os 90', terá de haver uma grande reacção, mas é disso que as grandes equipas são feitas. Espera-se um grande jogo, que será transmitido pelos canais do Valadares. Hoje às 16 horas.

Boavista vs Ovarense - o Boavista recusa a deitar a toalha ao chão, apesar de estar na última posição quase desde sempre. A vitória em A-dos-Francos veio dar um novo alento. E matematicamente ainda é possível a manutenção se ganhar os jogos todos e a Ovarense perder os seus e o Vilaverdense também. Tarefa difícil, mas não impossível. A Ovarense não pode descuidar-se, porque apesar da sua voluntariedade e abnegação, ainda não estão em zona confortável. Será um jogo de bastante luta.

Clube de Albergaria vs A-dos-Francos - duas equipas com a manutenção garantida, irão jogar praticamente para cumprir calendário. Veremos como a equipa da reacção reage à eliminação da Taça de Portugal, sendo que pode lutar para ficar em quarto lugar. O A-dos-Francos, depois da derrota em casa com o Boavista, irá querer dar outra imagem e consolidar a posição.

CS Marítimo vs Estoril Praia - um campeonato brilhante para esta equipa estreante da Liga BPI, onde se encontra no sexto lugar, mas com possibilidades de subir até ao quarto. Vai receber um Estoril que marca muitos golos e se encontra confortável no quarto lugar, sem hipótese de ascender ao terceiro. Será um jogo aberto, com as equipas a fazerem o seu melhor e com bastantes golos, certamente.

Sporting CP vs Vilaverdense - um jogo de dificuldade menor para o Sporting, mas para levar muito a sério e ganhar incontestavelmente. Na próxima jornada vai a Braga e todos os índices deverão estar no máximo: físicos, motivacionais, técnicos e tácticos. Para o Vilaverdense, em lugar de desproporção, este não é o jogo ideal para recuperar. Terá de esperar que os seus adversários directos não se destaquem, para manter viva a chama.

CA Ouriense vs C Futebol Benfica - velhos rivais, o Ouriense e o Fofó nem a feijões querem perder estes jogos. O Ouriense tem intercalado o bom e o mau, mas este jogo tem uma motivação especial e as suas jogadoras quererão brilhar frente ao seu público. Ir ao Campo da Caridade nunca é fácil. O Futebol Benfica tem feito um campeonato de grande resistência e bastante qualidade, aqui e ali escondidas em alguns jogos menos conseguidos - como o da Taça de Portugal frente ao Valadares e na derrota em casa com o Albergaria. Conquistou com todo o mérito o terceiro lugar a três jornadas do fim, tendo agora que gerir essa vantagem para abrilhantar o trajecto desta época. Em Ourém terá a vida dificultada e um bom teste à sua real valia. 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O futuro do futebol feminino nacional está garantido!

(Foto: Maria João Xavier)


A frase que serve de título a este texto não é da minha autoria mas sim da Ana Borges, sendo que concordo e subescrevo em absoluto.

No passado fim-de-semana, o de Páscoa, regressei às origens e estive presente com muito gosto e orgulho no II Torneio Internacional Almeirim Women’s Cup, no papel de Madrinha, a convite do UFC Almeirim e onde observei um sem número de jogos. Admito que os que me despertaram mais interesse foram os dos escalões de formação (infantis e juvenis) ainda que tenha observado quase a totalidade dos jogos no escalão sénior.

E porque foram os jogos dos escalões mais jovens que despertaram mais interesse? Exatamente porque dá a resposta à pergunta de partida deste texto. É uma delícia observar miúdas de idades tão jovens a começar a praticar o seu desporto de eleição. Qualidade e talento não faltam, os jogos foram emotivos e nestas coisas, ainda que num torneio a “feijões”, ninguém quer perder. É tão agradável perceber que desde cedo começam a ter noção do jogo, ainda que com toda a liberdade para criar, mas que se posicionam no terreno de jogo de acordo com o que os treinadores indicam. É toda uma nova realidade em desenvolvimento.

As “claques” organizadas das equipas, vulgo os pais e familiares das jovens jogadoras, são incansáveis no apoio que dão antes, durante e após os jogos. Os cânticos, as cores dos clubes que defendem bem presentes na indumentária de cada um é uma festa dentro da grande festa das miúdas: jogar futebol. Foi uma alegria constante o que se viveu em Almeirim nos dois dias de torneio.

Mas a grande alegria, para miúdas e graúdos, estava reservada para a tarde de sexta-feira, quando a Ana Borges marcou presença em Almeirim. Foi uma enorme surpresa (inclusive para a organização) e as horas que esteve no complexo desportivo colocaram em delírio as cerca de 320 jogadoras que evoluíram no torneio. Rivalidades clubísticas à parte, a Ana Borges (assim como todas as jogadoras portuguesas mais representativas) personifica a imagem que todos os sonhos podem ser realizados e as solicitações para um autografo e/ou uma fotografia vieram de todos os clubes nacionais presentes. E este é um papel que as mesmas jogadoras mais representativas podem facilmente desempenhar sempre que livres dos seus compromissos profissionais.

Afinal, todas as jogadoras portuguesas, especialmente as profissionais que representam os clubes grandes (SL Benfica, SC Braga e Sporting CP) são as referências e os modelos a seguir. O papel que estas desempenham no imaginário das jogadoras mais jovens até pode ser por elas desconhecido mas, felizmente, as jogadoras que agora começam a dar os primeiros pontapés na bola têm como referência jogadoras portuguesas. E as mais jovens, tendencialmente, vão “copiar” os seus ídolos. E são estas, ainda, que os pais das jogadoras mais jovens vão observar e avaliar (não se iluda quem pense que os pais não fazem isto, é uma reação natural) como um bom (ou não) exemplo para a sua filha.

Naturalmente que o aumento de visibilidade do futebol feminino nacional, especialmente através da transmissão dos jogos das seleções nacionais e de alguns jogos entre clubes (caso das meias finais da Taça de Portugal) potencia e transporta as jogadoras para um plano de destaque, até há relativamente pouco tempo, inimaginável.

A minha questão, com que finalizo este texto, é quantas das nossas jogadoras nacionais estão disponíveis para seguir o exemplo da Ana Borges e aparecerem quando menos se espera e sem que lhes seja pedido?

Não sei, mas quero acreditar que muitas…

Afinal, são as jogadoras a face (mais) visível do futebol feminino português.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Liga BPI - o regresso quase um mês depois




Após quase um mês de paragem, por causa da Taça de Portugal e trabalhos da selecção nacional sub/19 e A, aguarda-se com alguma expectativa o regresso da Liga BPI.
Como se irão apresentar as equipas, após este interregno? Mais descansadas? Menos competitivas? Com jogadoras recuperadas? O resultado só saberemos no final da jornada, mas entretanto vejamos que confrontos temos:

Braga vs Clube Albergaria - o Braga desde a jornada 15 que está com maior pressão de ganhar, sob pena de receber o Sporting, daqui a dois jogos, em igualdade pontual. Não que a equipa tenha dificuldade em lidar com a pressão, mas ambas equipas se equivalem ao nível de talentos e o Sporting pode muito bem ir ganhar a Braga. Portanto, será um jogo difícil para o Clube Albergaria, que está tranquilo no quarto lugar, e terá de saber aguentar o caudal ofensivo que as minhotas sempre procuram imprimir ao seu jogo. 

Ovarense vs Ouriense - a Ovarense não pode distrair-se porque tem o Vilaverdense a três pontos. E a troca de posição pode implicar o desconforto de cair nos lugares da descida. O Ouriense tendo começado o campeonato muito bem, tem revelado alguma irregularidade nesta segunda volta. Será um jogo de taco a taco e a necessidade de pontuar da equipa da casa poderá trazer grandes dificuldades ao Ouriense.

Futebol Benfica vs Marítimo - o Fofó tem-se aguentado muito bem no terceiro lugar, onde se instalou à nona jornada, e nem a ausência por lesão de Edite Fernandes abalou a posição. Nem sempre com prestações regulares, mas o trabalho da Madalena Gala no seu ano de estreia como principal tem sido bastante positivo, algumas vezes até muitíssimo bom. O Marítimo está a fazer um campeonato incrível, com uma atitude sempre muito aguerrida na busca dos seus objectivos e o sexto lugar é um excelente prémio. É uma equipa que joga sempre para marcar golos e só em três jogos ficou a zeros. Irá, certamente, dificultar a vida ao experiente Futebol Benfica.

Vilaverdense vs Estoril Praia - não tem sido um campeonato fácil para o Vilaverdense, mas nos últimos jogos alguns pontos ganhos e outros perdidos pela equipa que vai acima, deixaram em aberto como vai ser a sua classificação no final. Certo que terá de vencer para continuar a sonhar, mas a equipa do Estoril tem um ataque demolidor e não tornará fácil a tarefa. Para o Estoril há também a esperança de conseguir subir um lugar na tabela, se vencer o Clube Albergaria perder. Mas a corda no pescoço está em Vila Verde, naturalmente.

A-dos-Francos vs Boavista - capaz de vencer fora e perder em casa, com equipas de igual valia, o A-dos-Francos não tem um perfil muito regular. No entanto, atendendo ao campeonato que o Boavista está a fazer, crê-se que a vitória da equipa da casa será o desfecho mais natural. Um ano difícil para o Boavista, o clube mais histórico do futebol feminino em Portugal. Deseja-se que este 'tropeção' sirva para os responsáveis olharem para a modalidade e lhe darem o apoio que ela precisa e merece. 

Sporting vs Valadares - o Sporting desta época está longe daquele que encantou toda a gente há três anos. Parece uma equipa cansada, física e psicologicamente. Não terá um jogo fácil frente ao Valadares, mas a sua obrigação é vencer. Digo isto desde o início, seja para o Sporting, seja para o Braga. Duas equipas profissionais têm mais do que obrigação para se imporem frente às restantes equipas da Liga BPI. Essa pujança não tem sido notória e algumas vezes a vitória é por margem mínima. Mas a redução da desvantagem para três pontos em relação ao Braga, deve servir para uma motivação extra. No entanto, nem tudo se consegue só com motivação. A parte técnica e táctica é demasiado importante. E, nesse aspecto, o Sporting tem-se revelado previsível e triste. O Valadares está tranquilo na classificação e este jogo será um bom espaço para crescerem e se prepararem para o jogo da meia-final da Taça no próximo fim de semana. Portanto, nada a perder, antes sim mostrar um bom futebol. 

Esperemos que depois daquela enchente no Estádio do Restelo mais pessoas se habituem a ir ver jogos de futebol feminino. São sempre uma agradável surpresa.    

terça-feira, 2 de abril de 2019

#TodosMoçambique: um Benfica x Sporting solidário.

(Foto: Anabela Brito Mendes)



Já se sabe que o desporto em geral e o futebol em particular é um veiculo de excelência (a exemplo dos concertos musicais) para chamar a atenção da população mundial para causas de diversos âmbitos, que necessitam de ajuda urgente para que os danos não atinjam proporções (ainda mais) assustadoras quando há vidas humanas envolvidas.

Mais do que o resultado do jogo em questão (vitória do Sporting CP pela margem mínima), o que se assistiu na bancada é de realçar e deixa-nos a esperança que há vida para além de clubismos fanáticos.

Ao apelo da Federação Portuguesa de Futebol (um exemplo sempre que se fala de solidariedade, quem não se lembra das ações relacionadas com os incêndios de Pedrogão Grande?), em conjunto com o Sindicato dos Jogadores, Associação de Futebol de Lisboa, a disponibilidade do Clube Futebol “Os Belenenses” para ceder o estádio e os clubes envolvidos, os portugueses responderam “presente”. Foram mais de 15 000 adeptos presentes do Estádio do Restelo (que bela moldura humana com uma fantástica paisagem de fundo), dos dois clubes, misturados entre si (embora tenha existido a preocupação da separação física de adeptos) e que fizeram a festa. Os cânticos de cada clube não se deixaram de ouvir, cada qual puxou pela sua equipa mas num ambiente descontraído, saudável e de consciência pelo motivo que se tinham deslocado ao Restelo.

Vi, como há muito não via, famílias inteiras nas bancadas. Cada qual envergando as cores do seu clube. À minha frente estava uma família declaradamente sportinguista mas imediatamente atrás estava uma família em que cada um tinha a sua preferência e não foi por isso que deixaram de estar e festejar em conjunto.

As jogadoras foram as maiores promotoras do evento. A sua entrega ao jogo e o respeito mútuo foram notas dominantes e a fotografia final na cerimónia de entrega do troféu “Vicente Lucas” é uma imagem a reter e a promover.

O jogo, esse, deu a primeira amostra do que podemos esperar na próxima época na Liga BPI e demais competições, caso se encontrem. Foi um jogo bem disputado, com inúmeras oportunidades de golo de ambas as equipas e não existindo a pressão de pontos ou eliminatórias, facilitou os intervenientes a proporcionar um bom espetáculo a todos no estádio e aos que assistiram via televisão.

Bem sei, infelizmente, que em situação de competição, outros valores se levantam, o clubismo sobrepõem-se muitas vezes ao bom senso e acabamos por assistir a cenas que em nada dignificam os clubes e o futebol em geral. Felizmente, que no jogo de sábado nada disto ocorreu e o salutar convivo pré, durante e após o jogo foi a nota dominante. Não tenho utopia de pensar que este ambiente se possa repetir nas futuras competições mas que seria bom, lá isso seria.

Que não seja necessária outra catástrofe para assistirmos (e vivermos de perto) a outro dia para recordar na história do futebol feminino nacional, onde foi alcançado um novo máximo de assistência num jogo de futebol feminino em Portugal.

Deixo-vos uma questão… se o jogo contasse para uma competição interna, com entradas pagas (cujo valor podia ser o mesmo, 2,5€), teríamos ido todos ao Restelo?

Eu, seguramente, iria! Só assim se cresce e evolui.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Benfica x Sporting - derby feminino por Moçambique


Mal se soube da criação de uma equipa feminina por parte do Sport Lisboa e Benfica, instalou-se a natural curiosidade sobre quando é que iria acontecer o derby Benfica-Sporting. Esse confronto, entre as melhores equipas de ambos emblemas, estaria naturalmente agendado para a época 2019/2020. Apesar de ter entrado para o escalão inferior, o Benfica construiu uma equipa fortíssima que lhe garantia a subida de divisão de forma tranquila. Já houve confrontos entre ambos, tanto na formação, como nas seniores, mas com a equipa 'B' do Sporting. E não é nada disso que o público adepto, tanto dos clubes como do futebol feminino, deseja ver.

Foram causas naturais, daquelas que ainda que previsíveis ninguém controla, as "causadoras" da antecipação deste confronto. O ciclone tropical Idai, que irrompeu pela costa leste de Moçambique e deixou um rasto de destruição e devastação, foi, portanto, o leitmotiv deste evento solidário agendado para amanhã, 30 de Março, pelas 16 horas no Estádio do Restelo.

Não podia haver melhor motivo para esta estreia. Sendo equipas de clubes com uma rivalidade centenária, que nem sempre se manifesta publicamente da maneira mais assertiva e correcta, o facto de se defrontarem para um evento solidário extra-competição poderá levar, assim o esperamos, a que o público se fixe nos pormenores do jogo e no talento das jogadoras, deixando de lado o folclore da má criação habitual nestes jogos. 

Não deverá haver grandes dúvidas de que as equipas se apresentarão na sua máxima força. E isso até revelará o respeito dos treinadores pelo carácter social e solidário do evento. 

Ambas as equipas têm coisas boas a retirar deste jogo, para além da sensação de conforto emocional por estarem a ajudar o povo de Moçambique. Para o Benfica, será a oportunidade de ter um adversário, novamente, à sua altura e perceber até que ponto tem uma equipa para lutar pelo título na Liga BPI, na próxima época. O Sporting ainda poderá ter algo a ganhar até ao final desta. O confronto com o Braga, na penúltima jornada, com uma vitória por mais 3 golos, dar-lhe-á o título. Portanto, o jogo de amanhã poderá ser um bom teste para a capacidade táctica e anímica da equipa. 

Sejam quais forem as motivações das equipas, seguramente será um jogo emocionante e rico. Excelentes executantes de ambos os lados, serão elas que farão o espectáculo e alegrarão as bancadas do Restelo. Que haja golos, para que a festa seja melhor.

Para que tudo seja perfeito, esperemos que as pessoas adiram e pintem as bancadas de vermelho e verde. E que o bom senso se sobreponha à rivalidade e haja palmas para todas as jogadoras envolvidas neste evento, joguem elas ou não. 

#TodosMoçambique



segunda-feira, 25 de março de 2019

SL Benfica – SC Braga: a primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal BPI

(Foto: Anabela Brito Mendes/Sports and Girls)

Quem me conhece e acompanha o que vou escrevendo sabe que não abordo questões técnico-táticas de jogos de futebol. Isso fica para os entendidos, que não é de todo o meu caso. Mas, como adepta de futebol, creio que consigo diferenciar um bom jogo, daqueles de encher o olho de um jogo monótono e pouco atrativo.
Ora, o jogo que opôs o SL Benfica ao SC Braga, disputado no Estádio da Tapadinha, não sendo um jogo de encher o olho teve todos os ingredientes que o tornaram de nervos, emoções fortes, de enorme entrega das jogadoras de ambas as equipas e de incerteza no resultado até soar o apito final. Os milhares de adeptos que se deslocaram ao estádio (seguramente mais de 2500) e os que assistiram através da transmissão televisiva não saíram defraudados e assistiram a um espetáculo disputado no limite.
Foi o primeiro jogo para o SL Benfica contra uma equipa da Liga BPI também profissional e era aguardado com grande expetativa para se perceber, de forma definitiva, a real qualidade da equipa lisboeta. E, quem esperava ver a equipa encarnada com prudência para perceber como o jogo ia decorrer, enganou-se. Foi a equipa que entrou mais forte, a cometer menos erros, a ter mais posse de bola e à procura do golo, que surgiu com naturalidade à passagem do minuto 25, por Darlene. Um golo de belo efeito num remate de primeira após mau alívio da defesa bracarense. A mesma jogadora podia ter aumentado a contagem quase de seguida mas a bola saiu rente ao poste. O Braga, até ao golo do Benfica, mostrou-se uma equipa muito diferente do que já vimos esta época. Não conseguia ter bola, as suas jogadoras, aparentemente, acusaram mais a responsabilidade do jogo que as suas adversárias, os passes raramente tinham o destino certo e não conseguia assentar o seu jogo. O golo da igualdade surge de um lance de bola parada, onde a GR do Benfica não fica isenta de culpa, numa saída em falso, aos 37 minutos.
A etapa complementar revelou um Braga mais próximo do que é habitual, a conseguir manter a bola em seu poder (todavia sem nunca criar lances de perigo eminente para a baliza encarnada) e a obrigar as jogadoras do Benfica a um desgaste físico adicional na procura da mesma. O Braga trouxe ao de cima a sua maior experiência mas sem nunca amedrontar a equipa encarnada. O melhor da tarde estava guardado para o minuto 68 com o monumental golo do Braga, na marcação de um canto direto pela Ágata Pimenta. O Benfica não desistiu e voltou à carga à procura do golo do empate, mas deparou-se com uma barreira chamada Rute Costa (com a segurança que lhe é reconhecida manteve a sua baliza trancada) ou com a pontaria desafinada das suas jogadoras. Mesmo sobre o apito final, num livre ainda se gritou golo pelos adeptos benfiquistas mas foi ilusão ótica, já que a bola saiu ao lado, num cabeceamento quase perfeito de Tayla.
A diferença neste jogo, em jeito de resumo, foi o aproveitamento por parte do Braga das bolas paradas e a sua maior experiência e ritmo competitivo. Não se iluda quem pense que isso não ficou demonstrado. O Benfica não tinha tido, até ao jogo de ontem, necessidade de correr atrás resultado, nunca tinha estado na posição de desvantagem e não era obrigado a mexer na sua equipa ou mudar estratégia para recuperar. Ou seja, todas estas variáveis nunca tinham sido abordadas, em contexto de jogo, quer pela equipa técnica quer pelas jogadoras. Foi toda uma realidade nunca vivenciada e isso só se treina e aprende quando acontece.
(Foto: Anabela Brito Mendes/Sports and Girls)
A eliminatória está longe de estar decidida. O Benfica vai a Braga discutir a passagem à final da Taça de Portugal BPI de igual para igual. O resultado de ontem de nada lhe serve para que consiga alcançar um dos seus objetivos na época de lançamento. Dia 20 de abril espera-se outro jogo de emoções e nervos à flor da pele.
Uma coisa é certa, o futebol feminino nacional precisa de muitos mais jogos deste calibre, dimensão e competitividade para continuar a evoluir.
Que ninguém duvide disso!

sexta-feira, 22 de março de 2019

Taça de Portugal - meias finais com confrontos inéditos



Clube de Albergaria/Durit, Sporting Braga, SL Benfica e Valadares Gaia são os dignos representantes do futebol feminino nas meias-finais da Taça de Portugal, que se joga a duas mãos, a primeira das quais já este fim de semana.
 
Analisando somente a última década, o Valadares Gaia vai disputar a sua quinta meia-final, o Clube de Albergaria a quarta, o Braga a terceira e somente para o Benfica será a primeira, já que iniciou actividade esta época.
 
Curiosamente, e apesar da vasta participação de alguns, estes confrontos serão inéditos. O Albergaria já esteve nas meias-finais com o Valadares, mas ambos com outros adversários.
Uma coisa têm em comum estes quatro emblemas: nenhum deles jamais subiu a escadaria do Jamor em último lugar, ou seja, o de vencedor da prova. Imagine-se, portanto, o quão apetitosos serão estes quatro jogos!
 
De imediato iremos ter:
- amanhã dia 23, o Valadares Gaia x Clube de Albergaria/Durit
- domingo dia 24, o SL Benfica x Sporting Braga
ambos às 15 horas e com transmissão em A Bola TV. Mas com esta qualidade, só mesmo quem estiver longe ou não se puder deslocar é que não irá ver ao vivo.
 
Começando pelo Valadares x Albergaria, encontro já largas vezes disputado na prova máxima das competições femininas. Tendo como grande atractivo serem orientadas por treinadoras (Mara Vieira e Paula Pinho), o que garante que na final esteja uma mulher a comandar uma das equipas. A não ser que, em caso de vitória da eliminatória pelo Valadares, a Mara Vieira já esteja em licença de parto, visto estar grávida - outro facto inédito. Quanto ao jogo, será intenso e vibrante, sendo os adeptos do  Valadares sempre muito interventivos e dentro de campo ambas equipas gostam de jogar a disputar sempre a bola. De qualquer modo, a eliminatória estará longe de ficar resolvida, dado o equilíbrio de qualidade apresentado até agora.
 
No outro encontro teremos "o jogo" que despertará todas as atenções. Nada a fazer contra a grandeza do impacto dos chamados grandes. Aproveitar a embalagem e procurar estar o mais perto possível, seguir as boas práticas em termos de trabalho e divulgação, é o que de mais sensato os clubes mais pequenos deverão fazer.
 
Benfica x Braga, duas equipas profissionais, que trabalham diariamente nas melhores condições possíveis em Portugal, será o tal "jogo". Espera-se uma Tapadinha cheia, de adeptos das duas equipas e também de jogadoras de futebol, que têm este fim de semana de folga e não querem perder pitada de um grande jogo em perspectiva.  
 
O que se pode esperar para este jogo?
 
Um Benfica super motivado para atingir um dos objectivos traçados para esta época inicial: chegar à final da Taça de vencê-la. Com jogadoras muito talentosas e experientes, ainda não soube verdadeiramente o que são dificuldades. Ficam no ar duas interrogações: como se irá comportar perante um adversário mais forte, à sua medida, já que até agora as duas únicas vezes em que sentiu um pouco mais de dificuldade foi com o Sporting 'B'; conseguirá o treinador João Marques quebrar o enguiço contra equipas grandes como a sua? Domingo teremos a resposta.
 
O Braga tem tanta sede de ganhar como o Benfica, já que poderá estar muito próximo de ganhar os três troféus em disputa na época, sendo que já venceu o primeiro: a Supertaça. Do que se tem observado recentemente parece estar a acusar algum cansaço, mas isso poderá ser aparente. A equipa de Miguel Santos tem muita personalidade, sendo liderada em campo pela capitã, Vanessa Marques (a fazer uma época brilhante). O seu ataque é fortíssimo, tanto técnica como fisicamente. Esse será, talvez, o maior trunfo do Braga, já que a defesa do Benfica ainda não apanhou nenhum ataque assim.
 
Os ingredientes para um grande jogo estão todos lá. Uma casa, certamente, cheia ou perto disso. Tempo ameno. O que mais se poderá desejar?
- Uma equipa de arbitragem à altura das intérpretes e um público que se manifeste de forma vibrante, apaixonada, mas correcta. Insultos não fazem parte do desporto.